Sonzaço! Dom Um Romão: em quatro atos. Por Renato Queiróz
Senta que lá vem História
Ato I. O couro que reaprendeu a falar
Dom Um Romão
Carioca. Nasceu no Rio, dia 3 de agosto de 1925.
Partiu em 26 de julho de 2005, oito dias antes de fazer oitenta.
Ficou devendo o bolo.
Adorava doces e bolos, até dos refinados, mas admitia um desejo daqueles singelos, comuns, de receita de família, de casa, com as mais variadas vertentes, conhecidas ou de novas culturas, sempre pra comemorar.
Baterista, percussionista e compositor.
Era um baterista extraordinário. Daqueles que a gente ouve e já sabe de primeira: é ele.
Por quê?
Porque Dom Um não só batia no tambor. Ele conversava com ele.
Fazia o couro falar, gemer, cantar. Os pratos brilhavam, limpos, como os tais bolos bem devorados.
E o mais bonito: imitava a natureza com as mãos.
Chuva fina.
Vento forte.
Passarinho no galho.
Mato se mexendo.
Tudo aquilo que a gente ouve quando fecha os olhos.
Começou tocando em baile, em cabaré. Depois foi pra Rádio Tupi, que na época era o bicho.
Acompanhou cantora, cantor, fez nome.
Nos anos 50, fundou o Copa Trio, na bateria acompanhado pelo pianista Toninho e pelo contrabaixista Manuel Gusmão.
Pouco tempo depois, ajudou a erguer outra formação histórica, o Bossa Três, unindo sua bateria rítmica ao piano de Luiz Carlos Vinhas e ao contrabaixo de Sebastião Neto (Tião Neto).
E onde esses conjuntos se apresentavam?
No Beco das Garrafas, em Copacabana.
Ali era o formigueiro da MPB.
Ali passava todo mundo.
E Dom Um tava lá, no meio do voo, fazendo a base.
Ato II. No olho do furacão (e a nova invenção do som)
Em 1958, ele entrou no estúdio pra gravar “Canção do Amor Demais”, da Elizeth Cardoso.
As músicas eram do Tom Jobim.
O violão, do João Gilberto.
Esse disco é o marco zero da bossa nova.
Dom Um tava sentado na bateria no exato instante em que a música brasileira resolvia andar pra frente.
Não foi coadjuvante, não: tava ali, no olho do furacão.
Nos anos 60, foi pro grupo do Sérgio Mendes. Tocou no Carnegie Hall, em 1962, no Festival de Bossa Nova.
Depois acompanhou Elis Regina, o Quarteto em Cy, Flora Purim, com quem se casou.
No fim da década, voltou pros EUA. Gravou com Tom Jobim, Tony Bennett e uma penca de artista grande.
Em 1971, entrou pro Weather Report. Jazz pesado, da melhor qualidade.
Ficou até 1974. No ano seguinte, lançou o primeiro disco solo nos Estados Unidos: chamava “Dom Um Romão”, o nome já dizia tudo.
Dizer que ele era bom é fácil; o mistério é o que ele fazia no instrumento que ninguém mais fazia.
Dom Um tocava com as baquetas soltas, quase como se estivesse raspando o couro, não batendo.
Isso dava um som seco e ao mesmo tempo molhado: uma contradição que só ele dominava.
Enquanto os bateristas de jazz da época buscavam precisão milimétrica, ele buscava respiração.
A mão esquerda puxava o samba num andamento que balançava, mas a mão direita jogava acentos imprevisíveis, como quem joga pedrinha num lago.
E nos pratos, ele não fazia chiado: fazia espuma.
Comparado a Milton Banana, excepcional, que era reto e firme como um metrônomo carioca, Dom Um era torto, sinuoso, cheio de curvas.
Comparado ao também magistral Airto Moreira, que voava nos berimbaus e na voz, Dom Um preferia ficar ancorado no chão.
Mas um chão que treme, que é vivo.
Ele tocava o surdo com a palma da mão, não com a baqueta, para imitar o pulse do coração.
E nos tum-tuns, fazia variações que pareciam diálogos de novela: um tambor perguntava, o outro respondia.
Essa “pegada afro” vinha de uma escuta profunda dos terreiros de candomblé, umbanda
e das batucadas de rua,
mas filtrada pela harmonia complexa do jazz americano.
Ele não copiou ninguém.
Ele traduziu.
Tinha uma técnica que era dom mesmo. Dom Um tirava som de tudo, imitava a natureza com a percussão.
Era ouvido, era mão, era alma.
E a batida de samba dele era aberta, cheia de balanço, com essa pegada que poucos têm.
Quem ouvia reconhecia:
é o Dom Um.
Quando você ouve um disco antigo e a bateria parece que está conversando com o piano, em vez de apenas marcar o tempo, pode apostar:
ou é ele,
ou é alguém que aprendeu com ele.
Ato III. O andarilho do mundo
Trabalhou nos EUA até o começo dos anos 80. Depois foi morar na Suíça.
Mas esses trinta anos entre os EUA e a Suíça não foram silêncio, não. Pelo contrário.
Em Nova York, na virada dos anos 70 para os 80, virou uma espécie de andarilho de estúdio.
Gravava com músicos de fusão, de free jazz, de soul e também com cantores populares que ninguém, nem ele, imaginaria.
Estava no disco de estreia da cantora Astrud Gilberto nos EUA, sim, mas também em gravações do guitarrista John Abercrombie e do saxofonista Joe Farrell.
Não havia rótulo que o segurasse.
Na Suíça, para onde mudou em 1982, tornou-se referência nos festivais europeus de jazz.
Montou uma banda com músicos locais e passou a tocar em clubes pequenos de Genebra, Zurique e Lugano, onde a plateia não sabia português, mas entendia perfeitamente o que ele dizia com as mãos.
Não parou de compor, apenas parou de gravar sob o próprio nome. As fitas que rodavam nos bastidores dos festivais contavam histórias que só os músicos conheciam.
Em 1985, num festival em Montreux, fez uma apresentação solo de percussão de vinte minutos que a crítica suíça chamou de “a floresta amazônica transplantada para o palco”.
Começou com uma gota d’água (uma cabaça raspada) e terminou com uma tempestade (todos os tambores ao mesmo tempo).
A plateia ficou em silêncio por alguns segundos depois da última batida. Depois veio o tsunami de palmas.
Esse período europeu foi fundamental porque ele pôde experimentar sem a pressão do mercado americano. Misturou a percussão brasileira com ritmos do Leste Europeu e da África Ocidental e, óbvio, ninguém mandava nele.
Rodou o mundo em festival de jazz. Sempre aplaudido. Merecidamente.
Ato IV. O retorno e a despedida
Nos anos 90, voltou ao Brasil pra algumas apresentações. E em 1998, comemorando, veja só, lançou “Rhythm Traveller”.
O primeiro disco solo em mais de trinta anos. Valeu a espera.
O disco reuniu Nelson Ângelo, Ithamara Koorax, Fábio Fonseca. Tudo fera. Uma mistura de jazz, música eletrônica, acid jazz e jungle. Onze faixas.
Abertura com “Sinistro”, só percussão. Camadas e camadas de ritmo. Parece que os tambores tão conversando entre si, se desencontrando…
e aí, de repente, se encontram.
É bonito demais.
Tem “Capoeira Chant”, do Deodato. “Soul Bossa Nova”, do Quincy Jones. E “Mysterious Traveller”, do Wayne Shorter, homenageando o Weather Report.
Depois do disco, não parou. Começou a viajar de novo, mas agora com a mala mais leve e o sorriso mais largo.
Fez uma turnê pelo Brasil em 1999 que passou por São Paulo, Salvador e Recife.
No palco, já não tocava com a mesma explosão física dos anos 70, mas a inteligência rítmica só tinha aumentado.
Cada virada era mais econômica, cada pausa mais significativa.
Ele dizia nos intervalos:
“— Tô tocando menos, mas ouvindo mais. O tambor agradece.”
Em 2003, dois anos antes de partir, fez uma apresentação histórica no Sesc Pompéia, em São Paulo, ao lado de músicos da nova geração, uma molecada que nem tinha nascido quando ele gravou com Elizeth.
Depois do show, um jovem percussionista perguntou qual era o segredo.
Dom Um olhou, bateu dois dedos na mesa, imitando uma chuva fina, e respondeu:
“— O segredo é não ter segredo. É ouvir o que o tambor quer dizer. Aí você só obedece.”
Ele sabia que estava indo embora.
Não falava disso, mas gravou nos dois anos seguintes algumas faixas inéditas em estúdios caseiros de amigos, material que só foi lançado depois, em compilações póstumas.
Numa dessas faixas,
toca sozinho
durante doze minutos.
Quem ouve diz que parece uma prece.
No dia 26 de julho de 2005, ele partiu.
Oito dias antes do bolo. Mas o bolo, convenhamos, a gente mesmo pode cantar por ele. Porque a música que ele deixou é muito mais doce.
Vai lá ouvir.
Dom Um Romão é SONZAÇO!
Renato Queiroz é um apaixonado pela história e pela música
