Infância. Por Jorge Alfredo
Eu era muito jovem quando ouvi a estória de Kafka e sempre sentia um medo danado quando passava pelo corredor, na entrada do socavão da Jequitaia, sobrado de Vovô Chiquito, onde no andar térreo, mantinha uma fábrica de queimados, que ele comercializava na Estação da Calçada, da Leste Brasileiro.
Na fábrica, passagem para o imenso quintal de terra preta, ficavam as imensas mesas de pedras de mármore cercadas de ferros e pesos que evitavam que o grosso caldo do açúcar se derramasse no chão.
Aquele mundo de celofanes colorados de limão e baunilha embrulhavam minh’alma que nem versos embalados em papel manteiga.
O movimento dos baleiros arrumando as cestas com as bolachinhas de goma vindas de Alagoinhas. Aquele cheiro de maresia misturado à fumaça do fogão a lenha.
Tinha os pés de manga espada e os cacos de vidro, mas também as ratoeiras armadas para deter os roedores. E os pés de bananeiras do vizinho insistiam em dar cachos pro lado de cá.
No andar de cima, a cristaleira bonita da filha com cristais Fratelli Vita, o bar de bebidas proibidas e a sala de visita. Não para estar, muito menos brincar. Mas, à beira da varanda se cantava cirandas, se avistava um tanto de mar.
Minha Vó Tutu de manhã cedo jogava água na parede pra adivinhar o bicho do dia, e meu pai sempre ligado no prêmio da loteria e nas cartas do baralho.
Quando vieram as revoluções das baratas, eu ainda era criança e me impressionava muito com tudo isso. Já entendia o que viria a ser uma metáfora, mas a metamorfose literária ainda me surpreendia. Nem eu mesmo saberia, quiçá compreenderia a mais valia das labaredas no meu corpo de criança. Mas a culpa sempre coube ao álcool no paletó do meu pai que quase me santificou.
Os ônibus elétricos silenciosos eram um perigo para os cães de rua. As marinetes eram as preferidas no Largo de São Joaquim, da Coca Cola à Circular, a gente brincava nos passeios com receio de atravessar a avenida e nadar até a Pedra Quadrada.
O apito do trem da Leste praticamente anunciava que era hora do almoço.
Na ponto da lotação, Mãinha aguardava Mirinha, zeladora da sorte, advinha dos caminhos da obrigação. No quarto dos santos, os pedidos em segredo. Cada imagem duplicada em sentido de oração. Uma dita, outra pensada; Lázaro, Bárbara, Candeias.
Uma dita, outra pensada; Cosme, Doú, Damião…
Tudo como quase Antonio Alfredo, meu irmão poeta, descreveria mais tarde nas minhas melodias.
Jorge Alfredo Guimarães é cantor, compositor e cineasta baiano

