Aldeia Nagô
Facebook Facebook Instagram WhatsApp

Ribeira. Por Jorge Alfredo

3 - 4 minutos de leituraModo Leitura

Em 1963, meu pai, promotor publico, foi nomeado para a primeira comarca, e nos mudamos de Jequié para Salvador. Nossa família veio morar em Itapagipe, o que me pareceu algo encantador! Eu havia passado uma temporada de seis meses no Rio de Janeiro e voltara cheio de novidades. Então, achei muito bom não voltar pro interior da Bahia. Nossa nova moradia foi na Lélis Piedade, na Ribeira, bairro de gente namoradora e bronzeada, onde aprendi a tocar violão, comecei a ler muita poesia, ouvir muito mais música e praticar esportes.

Havia algo de paradisíaco no ar. Ainda cedinho, mamães e babás banhando crianças com o sol da manhã pelas calçadas. Adiante, rapazes e moças em trajes de banho a caminho da praia do Bogari; atletas de natação e remo ao lado de marinheiros e pescadores, tudo naquele ritmo cadenciado de beira mar, como que obedecendo ao balanço bem maneiro das pequenas vagas de enseada. De tardezinha, o velho hábito das famílias sentarem-se em cadeiras de lona ou espreguiçadeira, nas calçadas, à porta das casas para tomarem uma fresca, bater um papo, olhar o movimento, comentar a vida alheia. À noite, o flerte de esquina, os bêbados, os loucos, as serenatas dos apaixonados, a brincadeira, a certeza, enfim, que a Ribeira era o melhor lugar do mundo pra se viver.

Mais do que esse lado bucólico nos encantava a vida autônoma do bairro. Um morador da Ribeira poderia passar meses, até anos, se quisesse, sem ir ao centro da cidade. Pra quê? O bairro tinha opções de comércio, lazer, praias limpas e sem ondas, bons mercados, açougues, peixarias, uma ótima feira livre, armazéns e armarinhos, lojas, cinemas, belas e tradicionais igrejas, bons colégios públicos e particulares, clubes sociais, postos de saúde, delegacia de polícia, uma afamada sorveteria, eventos culturais e desportivos, festas religiosas e pagãs.

Suas ruas eram de paralelepípedos, adornadas de árvores frondosas, de boa sombra, uma imensa balaustrada voltada para o mar, com visão presepial do subúrbio, com o trem sobre a ponte Plataforma-Lobato fazendo ecoar um barulhinho de recanto do interior. A península era ancoradouro natural para navios de pequeno porte, barcos e veleiros. O vapor de Cachoeira fazia ali seus reparos, navegadores faziam suas amarrações e contavam histórias de além mar. Os saveiros traziam do recôncavo muita fruta, pescado, verdura, farinha de primeira e mel de abelha. Por ali também era fácil comprar uma calça Lee, um perfume francês e o whisky de contrabando.

Como se não bastasse, nas imensas coroas da maré vazante, centenas de famílias tiravam seu sustento catando papa-fumo, pescando camarão, colecionando búzios e contas para colares. Na maré cheia era só jogar o anzol da balaustrada e pescar curimãs e tainhas à vontade. Uma fartura. Não se morria de fome na Ribeira. Talvez essas características quase paradisíacas do local justifiquem o sentimento bairrista que os moradores da Ribeira sempre cultivaram ao extremo, passando isso de geração em geração. “Na natação e no confete, no remo e no basquete, só dá Itapagipe”, ufanavam-se. De fato, a performance itapagipana em competições esportivas era de alto nível.

E tinham as festas da Boa Viagem, do Bonfim e da Segunda-feira Gorda da Ribeira – esta, uma festa tipicamente pagã, primeiro grito de carnaval da Bahia, quando sempre o trio elétrico de Dodô e Osmar estreava o carro de som para o reinado de Momo.

Em geral, rapazes e moças de Itapagipe namoravam, noivavam e casavam por lá mesmo, entre eles. Um rapaz de outro bairro não tinha boa receptividade dos nativos. Havia até um pacto entre os da tribo da Ribeira de não deixarem os forasteiros manchar o nome do bairro. “Malandros, só os daqui mesmo.” Um delírio tribal

Jorge Alfredo Guimarães é cantor, compositor e cineasta baiano

Compartilhar:

Mais lidas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *