Fricote e coisa & tal. Por Cláudio Simões
Quando Sidney Magal entendeu que “Se te agarro com outro te mato” era uma incitação ao feminicídio, tirou a canção de seu repertório.
Quando Luiz Caldas compreendeu que “Fricote” incitava a violência física e psicológica contra as mulheres pretas, parou de cantar nos show a canção que o projetou nacionalmente.
Quando Roberto Carlos achou que era errado cantar palavras negativas em suas canções, não parou de cantá-las, mas mudou os versos que continham essas palavras.
Quando Adriana Calcanhotto cantou “Meu nome é Gal”, de Roberto e Erasmo, no show em homenagem a Gal, tomou a liberdade de mudar um verso. A Gal da canção procura “um rapaz que seja o tal” pra ficar com ela e diz que “tanto faz que ele não seja branco”. Adriana mudou esse verso pra “tanto faz que ele não seja santo”, mantendo o despojamento da moça da canção sem precisar ser racista.
Quando o artista vê algo de errado naquilo que ele criou anos atrás, ele pode revisar, mudar, renegar.
Insistir em cantar os versos que dizem que um homem bateu de cinto na mulher até cansar mostra que João Bosco não vê nada de errado em um homem surrar uma mulher. Ele tem talento de sobra pra encontrar novos versos que não traíssem a essência da letra que é sobre a desilusão amorosa.
Os versos violentos não são de fato necessários pra transmitir a sensação de desilusão. Podem ser substituídos por outros. Insistir em cantá-los neste momento em que vemos um aumento absurdo de feminicídios e violência contra as mulheres é insensível e irresponsável.
E não, não tem NADA na letra que diga que o cara que bateu na mulher se arrependeu, como alegam alguns defensores da canção. E, mesmo que ele se arrependesse, ainda seria a violência contra a mulher sendo legitimada. Aldir era brilhante, mas não, essa letra não tem crítica social, como alegam outros. Não tem ironia. Não tem punição.
A única coisa que o personagem da canção sofre é a desilusão amorosa, e, sim, os versos finais de Aldir são lindos, comparando essa decepção de um amor acabado com a decepção de um gol anulado.
Mas não justifica manter esse começo violento.
Falta bom senso e boa vontade a João. Sobra orgulho
