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Sonzaço! Porque o apito final nunca é o fim da conversa…Por Renato Queiróz

3 - 5 minutos de leituraModo Leitura

Senta que lá vem História!

Sete dias. Uma semana inteira e eu ainda tô aqui remoendo a final da Copa do Mundo…

O MetLife já deve ter lavado as arquibancadas, a FIFA já deve ter embolsado os lucros, e já articula outras copas, os patrocinadores já devem ter feito seus balanços. E as Bets vão continuar na ordem do dia.

Mas a gente, torcedor de alma e raiz, fica com aquela sensação estranha, sabe? Parece que assistimos a um filme com roteiro quase vazado, daqueles que você teme o final antes de começar.

A seleção argentina perdeu a esperada taça, é verdade. Mas tem um outro aspecto, que também chamou a atenção, foi ver quase todo mundo indignado. E com razão, eu diria. Porque não foi só um jogo mal jogado, foi o desfile de tudo que há de inquietante no futebol atualmente, a suspeita rondando cada lance, o VAR parecendo ter olho torto, a arbitragem decidindo o que queria enxergar.

Eu não sou chegado a teorias de conspiração, mas teve hora que eu me peguei pensando se isso ainda era esporte ou virou negócio.

E a torcida, meu Deus, as imagens que correram o mundo, o racismo escancarado, as ofensas que foram parar em todos os jornais de todos os continentes, e a organização da FIFA passiva deixando o circo pegar fogo. Aí não tem jeito, a simpatia que o mundo podia ter pela Argentina se esvaiu porque o mundo, cedo ou tarde, se cansa de ver sempre a mesma história se repetindo.

Messi, o maior de todos, podia ter falado, podia ter dito “isso não é certo”, ficou em silêncio e o pior silêncio é o de quem tem voz e não usa. Na final ele tava lá, mas parecia que não, assistindo os companheiros se perderem em cartões, em faltas, em desespero. Ídolo que se cala diante do erro não é líder.

Mas vou te contar, tenho uma preguiça danada de quem generaliza povo inteiro por causa de minoria birrenta e intolerante. Em todo lugar tem gente que pensa assim. Na Argentina também tem.

Milo J é esse retrato sem filtro: jovem, dezenove anos, cria de Morón, cidade operária na periferia da Grande Buenos Aires. O moço está fazendo um grande sucesso na Argentina e nas plataformas digitais, pelo mundo. E dizem que ele tem provocado, incomodado.

Milo J tem cerca de 6 milhões de seguidores no Instagram e 7,6 milhões no TikTok, além de mais de 14,9 milhões de ouvintes mensais no Spotify.

Milo J pega o trap e o rap e mistura tudo com o ronco seco do bombo legüero, cantando suas origens sem pedir licença.

Faz um som visceral que fala de amor, do louvável combate, de pele e de sangue, caminhando lado a lado com os que vieram antes sem nunca se curvar. É comunhão, não submissão.

A palavra que ele escolhe para fincar o pé no chão – “marrom” – carrega um peso político imenso. Ao assumir esse tom, Camilo Joaquín Villarruel (seu nome de registro) transforma a vivência da juventude trabalhadora e não-branca numa provocação direta à elite que sempre tentou empurrar essa gente para a margem.

É um eco direto de Mercedes Sosa, aquela voz monumental que parecia vir das montanhas e já cantava o “marrom” décadas atrás. O garoto de Morón pegou o reflexo, colocou no peito e cantou.

A Espanha levou a taça. Mereceu, jogou bonito e limpo. Mas não me venha com essa ideia de que o futebol europeu é exemplo. Os mesmos clubes que formaram aqueles jogadores fecham a base pra moleque sem padrinho, inflam salários, no fundo pensam só no dinheiro. E o racismo também é criminoso, constrangedor. A mão que ergueu o troféu era limpa, mas o sistema continua o mesmo.

No fim, sobra a gente. Os que ainda romantizam que futebol é rua, chinelo, pés no chão, festa, sofrimento, alegria, comunhão, muito além da várzea. Os que insistem que um drible ainda pode ser mais forte que o dinheiro.

A Copa acabou, a bola deu um suspiro. E enquanto tiver alguém indignado, que tenha amor ao futebol, ao esporte e ao seu virtuoso significado, a chama não apaga.

Aqui, Bajo de La Piel. Não é só música: é o peso da pele e das marcas que a história deixou, todas transformadas em orgulho. Composta pelo próprio Milo J, com arranjos e produção divididos com o Tatool e o Santiago Alvarado. É o som de quem encara a arrogância do sistema e segue em frente, não por dinheiro, mas por honra.

SONZAÇO!

Renato Queiroz é um apaixonado pela história e pela música

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