Aldeia Nagô
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O verão que nunca acabou. Por Jorge Papapá

4 - 5 minutos de leituraModo Leitura

Há verões que terminam quando o calendário muda de estação. Outros permanecem para sempre, guardados em algum lugar da memória, onde o tempo perde o poder de envelhecer as coisas.

O meu aconteceu em 1979.

Naquele ano viajei ao Rio Grande do Sul para representar a Bahia, com uma peça de teatro, em um congresso nacional de artistas. O encontro era em Canela, cidade bonita, de frio delicado e cheiro de hortência. Ficamos hospedados no Hotel Canela, como se a cidade quisesse nos abraçar logo na chegada.

E foi justamente ali, no primeiro dia, que a vida me apresentou Luciano Sérgio Valle de Ulhôa Cintra.

Ele representava Minas Gerais. Eu, a Bahia.

Não lembro exatamente das primeiras palavras. Lembro apenas da sensação. Existem pessoas que chegam sem pedir licença e, em poucos minutos, ocupam um lugar que parece reservado desde sempre. Foi assim com Luciano. Antes mesmo que o congresso começasse de verdade, já éramos amigos.

Pouco depois conhecemos Rose e Neca, duas gaúchas de Canoas. Bonitas, leves, curiosas, donas daquele jeito espontâneo de quem transforma desconhecidos em companheiros de viagem. Elas passaram a nos mostrar a região, enquanto nós descobríamos, sem perceber, que aquele congresso seria lembrado muito menos pelos debates do que pelos encontros.

O congresso acontecia durante o dia.

Mas era a vida que fazia sua verdadeira programação.

Naqueles dias, Caetano Veloso acabara de lançar Cinema Transcendental. O disco nos acompanhava como uma trilha invisível. As músicas pareciam comentar cada passeio, cada conversa madrugada adentro, cada riso compartilhado. Ainda hoje, quando escuto aquelas canções, sinto o perfume daquele verão voltando devagar.

Chegou o momento de partir.

As malas estavam prontas, os abraços dados, as promessas feitas como toda despedida de jovens que acreditam que o mundo é pequeno demais para separar pessoas.

Luciano e eu resolvemos adiar a volta. Ficamos mais alguns dias com Rose e Neca. Depois seguimos para São Paulo e, de lá, para Belo Horizonte, onde nos hospedamos na casa do amigo Javé.

Foi numa tarde qualquer que coloquei para tocar “Lua de São Jorge”. Enquanto Caetano cantava, uma sirene soou na rua. Fui até a porta imaginando qualquer coisa, menos o que vi.

Eram Rose e Neca.

Tinham atravessado quilômetros apenas para continuar vivendo aqueles dias conosco.

Até hoje penso que algumas pessoas não chegam por acaso. Elas obedecem a uma espécie de convocação secreta da felicidade.

Vieram mais risos, mais conversas, mais histórias.

Então fevereiro começou a vestir sua fantasia de carnaval.

Olhamos uns para os outros e a decisão foi imediata: Salvador.

Chegamos quando a cidade já pulsava em tambores, guitarras, trios elétricos e multidões. Salvador nos recebeu como só Salvador sabe receber: de braços abertos e coração escancarado.

Vivemos tudo.

As praias iluminadas pelo sol.

As noites intermináveis.

As festas.

As caminhadas sem destino.

Os encontros.

Os desencontros.

A alegria de descobrir que a juventude acredita sinceramente que o amanhã pode esperar.

Durante aqueles dias, éramos apenas quatro amigos caminhando dentro de um verão que parecia eterno.

Mas nenhum sonho ignora completamente o relógio.

Chegou o dia em que cada um precisou seguir seu caminho.

Rose e Neca voltaram para Canoas.

Luciano regressou a Belo Horizonte.

Eu permaneci em Salvador.

Lembro-me da estranha quietude que tomou conta da cidade depois da partida deles. A festa continuava nas ruas, mas dentro de mim havia um silêncio novo. Era a primeira vez que compreendia que a saudade também pode nascer da felicidade.

Os anos passaram.

A vida mudou de cenário muitas vezes.

Vieram outros amigos, outras viagens, outros carnavais.

Mas nenhum verão voltou a ser exatamente como aquele.

Quarenta anos depois, a vida resolveu nos presentear outra vez.

Luciano veio me visitar.

Quando nos abraçamos, era como se o tempo tivesse desistido de passar. Bastaram alguns minutos de conversa para que voltássemos a ser aqueles dois jovens que se encontraram pela primeira vez no saguão do Hotel Canela. Relembramos Rose e Neca, rimos das aventuras, cantamos Caetano de memória e revivemos, detalhe por detalhe, aquele verão que nos transformou para sempre.

Foi um encontro de rara felicidade.

Percebemos, então, que o verão de 1979 nunca havia terminado.

Rose, Neca e Luciano ficaram na minha vida como uma tatuagem. Dessas que o tempo não desbota, não apaga e nem a saudade consegue esconder. Marcas feitas não na pele, mas na alma.

Talvez seja esse o verdadeiro milagre da memória.

Ela nos devolve, por alguns instantes, não apenas o passado, mas as pessoas que fomos.

E, enquanto houver um amigo para lembrar, uma canção de Caetano para tocar e um coração disposto a sonhar, aquele verão continuará existindo.

Como se nunca tivesse ido embora.

Ele continuava aceso dentro de nós, queimando mansamente, alimentado pela amizade, pela música e pelas lembranças que o tempo, por mais que tente, jamais consegue apagar.

Talvez seja esse o verdadeiro milagre da memória.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

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