Aldeia Nagô
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Só – Ares – Marinho. Por Jorge Papapá

3 - 4 minutos de leituraModo Leitura

A praia de Itapoan era a sede da SOARES MARINHO.

Pelo menos era assim que a gente dizia.

E não faltávamos ao trabalho durante a semana. Nem um dia. Às vezes, era apenas para bater o ponto e sair devagarinho, como quem abandona uma repartição pela porta dos fundos. Nosso escritório funcionava na barraca de Juvená, o Animal.

Juvená chegava ainda de madrugada, quando a noite começava a recolher suas sombras e o mar ainda falava baixo. Abria a barraca, ajeitava as mesas, sentava-se com o jornal do dia e esperava o mundo acordar.

A primeira gelada, porém, tinha hora certa.

O Animal sabia esperar.

Só lá pelas tantas vinha a primeira. Mas, depois que a tampa se abria e o líquido dourado descia, era como abrir uma comporta: difícil parar.

Eu às vezes chegava cedo, depois da caminhada pela praia. Outras vezes, depois do virote sagrado. A primeira cerveja descia leve, rebatia e acordava. Era o despertador oficial do escritório.

Depois, a firma começava a funcionar.

Paulinho chegava de moto, como quem desembarcava para mais uma reunião de diretoria. Silvio vinha com seu inseparável pandeiro, sempre pronto para dar ritmo à conversa. Celso Cotrin aparecia na área. Dôia, a primeira-dama, chegava com seu copo gigante, onde só bebia sua mistura — uma instituição à parte.

Godi vinha de mansinho, tomava sua cerveja e esperava a maré da conversa começar a subir. Oscar Paris também marcava presença. Marcelo Ritter completava a roda. E Mole, esse nunca dava mole — principalmente quando chegava a hora de acertar as contas.

E a conversa subia.

Na barraca do Animal, a resenha era como a maré: começava mansinha e, quando a gente percebia, já tinha tomado conta de tudo.

Ali, a cerveja era combustível, a areia era carpete e o mar, nossa parede de vidro. O expediente não tinha relógio. Tinha sol. Quando o sol mudava de lugar, a reunião apenas mudava de assunto.

A barraca era famosa em Itapoan.

E não era por acaso.

Às vezes, o escritório recebia visitas ilustres. Juca Chaves, que tinha casa nas redondezas, aparecia por ali. Nos fins de semana, a barraca se transformava em palco: música ao vivo, violões, vozes, gargalhadas.

Artistas, músicos, intelectuais, professores, políticos e todo tipo de gente passava por ali para saudar o Animal.

Era como se Itapoan tivesse escolhido aquela barraca para ser sua sala de visitas.

Juvená, no centro de tudo, parecia um velho capitão de porto. A cada dia, novos personagens atracavam naquele pedaço de areia, trazendo histórias de outras praias, outras noites e outras vidas.

Ali não havia convite.

Bastava chegar.

A barraca era democrática como o mar: cabia todo mundo.

Quando alguém perguntava onde a gente passava os dias, a resposta vinha pronta:

— No escritório da SOARES MARINHO.

Era nosso disfarce.

A verdade era que trabalhávamos numa empresa que pagava em amizade, depositava alegria na conta da memória e oferecia como benefício uma vista permanente para o mar.

Hoje, quando lembro daqueles dias, vejo tudo como uma fotografia que o tempo não conseguiu apagar.

Juvená chegando cedo.

O jornal aberto.

A primeira gelada esperando sua hora.

Depois, a segunda, a terceira, a conversa crescendo, o pandeiro de Silvio, as gargalhadas, as histórias que aumentavam a cada rodada.

Paulinho chegando de moto.

Celso Cotrin na área.

Dôia e seu copo gigante.

Godi chegando de mansinho.

Oscar Paris.

Marcelo Ritter.

Mole de olho na conta.

E o mar, sempre o mar, batendo seu ponto diante de nós.

Naquele tempo, a gente achava que estava apenas passando o dia.

Não sabia que estava construindo saudade.

Porque há momentos que parecem pequenos enquanto acontecem, mas que o tempo transforma em monumentos.

A barraca de Juvená era um desses lugares.

Não era apenas uma barraca.

Era um porto.

Um palco.

Uma sala de visitas.

Um confessionário.

Um pedaço de mundo onde o tempo chegava descalço, sentava à mesa e esquecia de ir embora.

E talvez por isso, quando a memória abre aquela porta, tudo ainda esteja lá.

O Animal atrás do balcão.

O jornal nas mãos.

A cerveja gelada.

O pandeiro.

As gargalhadas.

Os amigos.

O mar.

E nós, jovens outra vez, batendo o ponto no velho escritório da SOARES MARINHO.

Sem salário.

Sem crachá.

Sem horário para sair.

Mas com o melhor benefício que a vida poderia oferecer:

a amizade de uma turma e a lembrança de um tempo em que ser feliz parecia a coisa mais simples do mundo.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

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