Só – Ares – Marinho. Por Jorge Papapá
A praia de Itapoan era a sede da SOARES MARINHO.
Pelo menos era assim que a gente dizia.
E não faltávamos ao trabalho durante a semana. Nem um dia. Às vezes, era apenas para bater o ponto e sair devagarinho, como quem abandona uma repartição pela porta dos fundos. Nosso escritório funcionava na barraca de Juvená, o Animal.
Juvená chegava ainda de madrugada, quando a noite começava a recolher suas sombras e o mar ainda falava baixo. Abria a barraca, ajeitava as mesas, sentava-se com o jornal do dia e esperava o mundo acordar.
A primeira gelada, porém, tinha hora certa.
O Animal sabia esperar.
Só lá pelas tantas vinha a primeira. Mas, depois que a tampa se abria e o líquido dourado descia, era como abrir uma comporta: difícil parar.
Eu às vezes chegava cedo, depois da caminhada pela praia. Outras vezes, depois do virote sagrado. A primeira cerveja descia leve, rebatia e acordava. Era o despertador oficial do escritório.
Depois, a firma começava a funcionar.
Paulinho chegava de moto, como quem desembarcava para mais uma reunião de diretoria. Silvio vinha com seu inseparável pandeiro, sempre pronto para dar ritmo à conversa. Celso Cotrin aparecia na área. Dôia, a primeira-dama, chegava com seu copo gigante, onde só bebia sua mistura — uma instituição à parte.
Godi vinha de mansinho, tomava sua cerveja e esperava a maré da conversa começar a subir. Oscar Paris também marcava presença. Marcelo Ritter completava a roda. E Mole, esse nunca dava mole — principalmente quando chegava a hora de acertar as contas.
E a conversa subia.
Na barraca do Animal, a resenha era como a maré: começava mansinha e, quando a gente percebia, já tinha tomado conta de tudo.
Ali, a cerveja era combustível, a areia era carpete e o mar, nossa parede de vidro. O expediente não tinha relógio. Tinha sol. Quando o sol mudava de lugar, a reunião apenas mudava de assunto.
A barraca era famosa em Itapoan.
E não era por acaso.
Às vezes, o escritório recebia visitas ilustres. Juca Chaves, que tinha casa nas redondezas, aparecia por ali. Nos fins de semana, a barraca se transformava em palco: música ao vivo, violões, vozes, gargalhadas.
Artistas, músicos, intelectuais, professores, políticos e todo tipo de gente passava por ali para saudar o Animal.
Era como se Itapoan tivesse escolhido aquela barraca para ser sua sala de visitas.
Juvená, no centro de tudo, parecia um velho capitão de porto. A cada dia, novos personagens atracavam naquele pedaço de areia, trazendo histórias de outras praias, outras noites e outras vidas.
Ali não havia convite.
Bastava chegar.
A barraca era democrática como o mar: cabia todo mundo.
Quando alguém perguntava onde a gente passava os dias, a resposta vinha pronta:
— No escritório da SOARES MARINHO.
Era nosso disfarce.
A verdade era que trabalhávamos numa empresa que pagava em amizade, depositava alegria na conta da memória e oferecia como benefício uma vista permanente para o mar.
Hoje, quando lembro daqueles dias, vejo tudo como uma fotografia que o tempo não conseguiu apagar.
Juvená chegando cedo.
O jornal aberto.
A primeira gelada esperando sua hora.
Depois, a segunda, a terceira, a conversa crescendo, o pandeiro de Silvio, as gargalhadas, as histórias que aumentavam a cada rodada.
Paulinho chegando de moto.
Celso Cotrin na área.
Dôia e seu copo gigante.
Godi chegando de mansinho.
Oscar Paris.
Marcelo Ritter.
Mole de olho na conta.
E o mar, sempre o mar, batendo seu ponto diante de nós.
Naquele tempo, a gente achava que estava apenas passando o dia.
Não sabia que estava construindo saudade.
Porque há momentos que parecem pequenos enquanto acontecem, mas que o tempo transforma em monumentos.
A barraca de Juvená era um desses lugares.
Não era apenas uma barraca.
Era um porto.
Um palco.
Uma sala de visitas.
Um confessionário.
Um pedaço de mundo onde o tempo chegava descalço, sentava à mesa e esquecia de ir embora.
E talvez por isso, quando a memória abre aquela porta, tudo ainda esteja lá.
O Animal atrás do balcão.
O jornal nas mãos.
A cerveja gelada.
O pandeiro.
As gargalhadas.
Os amigos.
O mar.
E nós, jovens outra vez, batendo o ponto no velho escritório da SOARES MARINHO.
Sem salário.
Sem crachá.
Sem horário para sair.
Mas com o melhor benefício que a vida poderia oferecer:
a amizade de uma turma e a lembrança de um tempo em que ser feliz parecia a coisa mais simples do mundo.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

