Aldeia Nagô
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Arygil, o poeta das ruas. Por Jorge Papapá

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Arygil praticamente morava lá em casa.

Digo “praticamente” porque, se dependesse dele, talvez tivesse deixado de ser visita fazia tempo. Chegava de bicicleta, guardava a magrela e entrava com aquela naturalidade de quem não batia na porta da amizade: já fazia parte dela.

Era magro, presepeiro, ágil, de pernas compridas, corpo de quem parecia ter sido feito para a bicicleta. Vestia-se com simplicidade, quase sempre com aquela aparência de quem estava pronto para sair pedalando outra vez. Os óculos pendurados no peito, a cabeça coberta, as mãos inquietas, o corpo sempre acompanhando a conversa.

E aquele sorriso.

Arygil tinha um sorriso que chegava antes dele.

Quando ria, o rosto inteiro ria. As mãos se movimentavam, os braços acompanhavam as histórias, e parecia que até o corpo tinha vontade de conversar. Arygil nunca foi homem de ficar parado.

Talvez porque carregasse dentro de si uma cidade inteira.

Arygil é compositor, poeta, agitador cultural, contador de histórias e, sobretudo, um desses homens que fazem da amizade uma forma de existência. É amigo de grandes nomes da música e das artes. Conhece gente, aproxima gente, celebra gente. Parece ter uma espécie de ímã para artistas.

E entre todas as suas paixões existe uma que talvez seja maior que as outras: Gilberto Gil.

Arygil é fã número um de Gil.

Mas não é apenas fã.

É amigo.

E talvez seja justamente aí que essa admiração ganhe outra dimensão. Porque ele não admira apenas o artista consagrado, o músico que o Brasil inteiro conhece. Arygil parece admirar o homem, a música, a trajetória, a inteligência, a delicadeza e tudo aquilo que Gil representa para a Bahia e para a cultura brasileira.

Às vezes fico imaginando uma coisa que prefiro não imaginar por muito tempo.

O dia em que Gilberto Gil não estiver mais aqui.

Penso em Arygil.

Penso naquele homem magro, inquieto, sorridente, que parece ter sempre uma história para contar e uma pessoa para abraçar.

E fico imaginando o tamanho do silêncio que poderia entrar naquele sorriso.

Porque há pessoas que admiramos.

Há pessoas que amamos.

E há aquelas que, de alguma maneira, ajudam a explicar quem somos.

Tenho a impressão de que Gil é uma dessas pessoas para Arygil.

Talvez por isso eu imagine que uma notícia assim atravessaria seu peito como uma bicicleta sem freio descendo uma ladeira.

Não sei se Arygil suportaria facilmente essa ausência.

Talvez chorasse.

Talvez escrevesse.

Talvez compusesse uma canção.

Ou talvez fizesse aquilo que sempre fez diante da vida: transformasse a dor em movimento.

Porque Arygil é assim.

Mesmo quando está parado diante de uma mesa de dominó, existe movimento nele.

A casa onde eu morava, em Itapoan, era de Angela Lomanto, minha companheira naquele tempo. Nos fins de semana, aquilo deixava de ser simplesmente uma casa. Virava uma espécie de clube sem placa, sem mensalidade e sem horário para fechar. Gente entrando, gente saindo, conversa pela sala, risada atravessando os cômodos, histórias se misturando.

E Arygil era um dos que ajudavam a acender aquela casa.

Ele chegava.

Guardava a bicicleta.

E vinha o desafio:

— Vamos jogar um lustrado?

Sentávamos frente a frente.

As pedras eram espalhadas sobre a mesa.

E começava a nossa pequena guerra.

Era pau a pau.

Às vezes eu ganhava. Às vezes ele ganhava. Havia provocação, blefe, silêncio, risada. E quando a gente percebia, a noite já tinha virado madrugada.

Lá fora, Itapoan dormia.

Dentro de casa, nós continuávamos acordados.

Arygil inclinado sobre a mesa, os olhos atentos, as mãos mexendo nas pedras, o sorriso aparecendo a cada jogada.

Hoje, quando lembro dele, não vejo apenas o homem que pedalava por Salvador.

Vejo o compositor.

O poeta.

O agitador.

O amigo dos artistas.

O homem que conhece a cidade pelas pernas e as pessoas pelo coração.

Vejo também aquele sujeito que chegava lá em casa como se tivesse deixado a rua do lado de fora e entrado apenas com a alegria.

E penso que talvez seja essa a maior riqueza de Arygil: ele não coleciona apenas histórias.

Coleciona pessoas.

E talvez seja por isso que tanta gente goste dele.

Porque há pessoas que passam pela nossa vida.

E há pessoas que fazem questão de passar dentro dela.

Arygil é dessas.

Ele atravessa Salvador de bicicleta.

Atravessa a música com suas canções.

Atravessa a poesia com suas palavras.

Atravessa a arte com suas amizades.

E atravessou também uma casa em Itapoan, numa época em que as noites pareciam não ter fim.

Quando a memória abre aquela porta, ainda consigo vê-lo chegando.

A bicicleta.

O sorriso.

Os óculos no peito.

As mãos inquietas.

A provocação:

— Vamos jogar um lustrado?

E então tudo recomeça.

As pedras.

As risadas.

A madrugada.

A amizade.

E, por algumas horas, o tempo fica sentado conosco à mesa.

Sem pressa de ir embora

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

Arygil

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