Aldeia Nagô
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Jehová de Carvalho. Por Jorge Papapá

3 - 4 minutos de leituraModo Leitura

Há homens que escolhem uma profissão. Outros parecem escolher um destino. Jehová de Carvalho foi advogado, poeta, cronista e boêmio — mas talvez nenhuma dessas palavras, sozinha, dê conta do homem que ele foi. Porque Jehová parecia ter nascido para conversar com a vida, e a vida, com suas esquinas, seus personagens e suas contradições, era a matéria-prima de sua escrita.

Na Salvador de outros tempos, quando a noite ainda parecia mais comprida e as conversas tinham o vagar das coisas que não precisavam terminar, Jehová transitava entre livros, processos, poemas, mesas de bar e amizades. Tinha o olhar de quem sabia enxergar além da aparência. Onde muitos viam apenas uma rua, ele encontrava uma história. Onde havia uma mesa de bar, descobria uma pequena assembleia de filósofos. Onde existia uma conversa despretensiosa, podia nascer uma crônica.

O advogado conhecia as leis; o poeta, porém, conhecia as entrelinhas da alma. Talvez por isso Jehová nunca tenha deixado que o homem da toga sufocasse o homem da palavra. Entre artigos, pareceres e processos, havia sempre uma janela aberta para a poesia. E entre um poema e outro, a vida real — essa grande e desobediente literatura — entrava sem pedir licença.

Boêmio por vocação e por encantamento, Jehová pertencia àquela espécie de homens que não tinham pressa de chegar em casa porque sabiam que a noite ainda guardava alguma história. Gostava da conversa, da companhia, do riso, da inteligência solta sobre a mesa. A boemia, para ele, não era apenas beber ou atravessar madrugadas: era uma maneira de estar no mundo. Era saber que uma boa conversa podia valer mais que uma noite inteira de sono.

Sua crônica nascia justamente desse território onde a vida e a literatura se encontram. Jehová escrevia com a intimidade de quem conhecia as ruas por dentro, os costumes, as figuras populares, os amigos, os tipos humanos e as pequenas grandezas do cotidiano. Havia em sua escrita uma Bahia que não cabia nos cartões-postais: a Bahia das esquinas, das rodas de conversa, da irreverência, da fé, da malícia, da solidariedade e da memória.

E talvez seja essa a maior qualidade de um cronista: perceber que nada é pequeno quando visto com os olhos certos.

Jehová tinha esses olhos.

Sabia que a vida também se esconde nos detalhes. Num gesto, numa frase, numa lembrança aparentemente sem importância. Sabia que o tempo passa, mas deixa migalhas pelo caminho — e que escrever é, muitas vezes, recolher essas migalhas antes que o vento as leve.

Por isso sua poesia não estava apenas nos versos. Estava também na maneira de viver. Estava na amizade, na boemia, na conversa comprida, no riso compartilhado, na capacidade de transformar uma noite qualquer em memória.

Há pessoas que passam pela cidade. Outras deixam a cidade passar por dentro delas.

Jehová de Carvalho foi dessas.

Carregou Salvador consigo como quem carrega um livro aberto, cheio de personagens, ruas e vozes. E talvez tenha sido justamente por isso que conseguiu ser advogado sem abandonar o poeta, poeta sem fugir do mundo, cronista sem perder a delicadeza e boêmio sem deixar de ser observador.

No fim, talvez Jehová não tenha escrito apenas crônicas. Ele escreveu uma maneira de lembrar.

E algumas vidas são assim: continuam acontecendo depois que terminam, porque permanecem nas histórias que contamos, nas mesas onde ainda se fala delas e nas palavras que, de vez em quando, devolvem ao presente aqueles que o tempo tentou levar.

E talvez não seja apenas uma coincidência bonita do destino. Talvez seja como se a própria vida, ao despedir-se dele, tivesse escolhido deixar uma palavra viva para continuar dizendo aquilo que ele foi: o encontro entre coisas diferentes que, juntas, encontram uma forma de soar bem.

Não é justamente isso que Jehová parece ter sido? Advogado e poeta. Homem da lei e homem da noite. Cronista e boêmio. Razão e paixão. A toga e a mesa de bar. O rigor das palavras e a liberdade dos sonhos.

Ele viveu entre esses mundos sem precisar escolher um só..

Porque há homens que deixam livros, outros deixam histórias, outros deixam saudades. Jehová deixou tudo isso — e deixou também uma filha cujo nome parece dizer, em uma única palavra, o resultado bonito de uma vida inteira: quando a poesia, a amizade, a boemia, a inteligência e a liberdade encontram o mesmo compasso, o que nasce é Harmonia.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

JEHOVÁ DE CARVALHO

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