Trocando em miúdos. Por Zuggi Almeida
“…Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia / Tudo passa, tudo sempre passará…”
O Circo Trocas de Segredos apareceu como uma ostra no mar de Ondina, na década de 80. Uma caixa mágica revelando pérolas preciosas a cada semana.
A lona foi erguida e tornou-se a pièce de résistence da cena cultural soteropolitana abrigando as mais diversas expressões artísticas, tendo como característica revelar talentos ainda em inícios de suas carreiras. Barão Vermelho, Titãs, Legião Urbana fizeram as primeiras apresentações em Salvador no Troca de Segredos. A atual Ministra da Cultura, Margareth Menezes atuava como cantora da fabulosa Orquestra do Maestro Vivaldo da Conceição.
A trupe que frequentava o Trocas respirava os primeiros ares do retorno para normalização democrática no Brasil. Enquanto lá fora, a brisa marinha chegava inebriada pelo doce aroma de cannabis sativa
Sonhos e devaneios. Éramos mágicos, malabaristas, bailarinos e bailarinas embalados pela diversidade musical da Orquestra do Maestro Vivaldo e o show particular de Galo- Cego: um percussionista que exibia a brilhante cabeleira, tendo nas mãos um par de maracas traçando desenhos mirabolantes no ar.
E segue o baile.
O Troca de Segredos era o ponto de encontro do pessoal da militância da esquerda após as reuniões dos partidos, estudantes universitários, profissionais liberais, outsiders e toda fauna transloucada que transitava nas noites de Salvador.
O circo chegou para dar luzes e alegrar um espaço ainda obscuro pelo domínio da política cultural reacionária dos governantes da época. O Troca de Segredos era revolucionário, transgressor, o oposto do oposto como todo circo deve ser.
Livre.
“…Tudo que se vê não é / Igual ao que a gente viu há um segundo / Tudo muda o tempo todo no mundo…”
E o Troca de Segredos chegou para mudar apresentando a criação coletiva do Asdrubal Trouxe o Trombone e a irreverência de um elenco que misturava o humor com a anarquia sem perder o foco nas referências da juventude dos 80’s. Regina Casé está aí para não me deixar mentir!
A alegria imensurável de assistir ao show de Caetano Veloso na estreia da lona do circo em Ondina, e sua inestimável elegância cedendo todo o cachê para o pessoal desse circo não teve preço.
O circo era moda, atitude, tendência, alegria e irreverencia. O circo era um mundo que nunca se calou.
Como seu irmão – o Circo Relâmpago, na Pituba -, o Troca de Segredos brilhou, fez muito barulho e desapareceu na escuridão da cegueira estatal.
Até surgir em outro local bem longínquo da capital, outra lona levando a alegria para aqueles que acreditam na felicidade.
“.. Há tanta vida lá fora / Aqui dentro, sempre / Como uma onda no mar…”
– Zuggi Almeida é um cronista baiano formado na universidade livre das ruas da cidade.
