As eleições e as náuseas. Por Aleilton Fonseca
O artigo de Muniz Sodré, na Folha de hoje, vai ao ponto da questão eleitoral, com muita clareza.
Penso que a náusea que marca essa eleição e que pode levar a um recorde de votos brancos e nulos tem duas facetas. Há uma camada esclarecida que desenvolveu um “nojo ingênuo” acerca da esquerda petista, devido ao bombardeio da mídia oficial e a certos erros cometidos. Mas os erros da esquerda são super dimensionados, enquanto os absurdos da extrema-direita são naturalizados. Há aí dois pesos, duas medidas.
Esses eleitores críticos, decepcionados com a esquerda, na verdade são reféns de uma “ética exacerbada” que iguala todos os políticos a podridão. Isso é um engano ingênuo.
Doutra parte há o nojo mútuo entre eleitores da esquerda e eleitores da extrema direita, o que é normal na conjuntura. No eleitor da esquerda o nojo ao bolsonarismo é visceral e terapêutico, na medida em que garante nossa saúde e resistência mental, por significar que temos consciência do perigo histórico que vivemos no país e no mundo.
Eis o cenário trágico: a democracia é tão democrática que oferece aos seus inimigos figadais o método democrático de abolição da democracia, uma possibilidade concreta através das eleições. O golpe legal. Eles apostam nisso totalmente.
A democracia precisaria encontrar uma salvaguarda estrutural que a torne pétrea, funcional e irremovível.
Hoje, nem nos USA, há verdadeira democracia, pois o poder imperial despótico está ali instalado, pasmem, através de um processo eleitoral, pretensamente democrático.
A parte progressista da sociedade parece deixar a vida fluir pelas regras falhas de uma democracia que depende mais do caráter (duvidoso) da classe política, do que dos seus fundamentos conceituais logísticos, legais e estruturais intrínsecos à Democracia.
Se houvesse um conceito de democracia pétrea e um aparato de leis que a sustentasse, a extrema-direita estaria inelegível por pregar ideias e procedimentos democraticidas.
A Democracia, no entanto, é tão democrática que admite em seu aparato mecanismos eleitorais e legais capazes de capacitar fascistas a usá-los para eleger poderes antidemocráticos, despóticos, fascistas, ditatoriais.
Vejo isso como uma falha conceitual da Democracia. E isso tem custado caro, pois a torna sempre frágil e ameaçada pelo autoritarismo e pelo grande capital, onde quer que esteja instalada no poder.
Assim, não há democracia plena em lugar nenhum, pois que é sempre mitigada pelo poder político e econômico de grupos hegemônicos.
O governo Lula no Brasil é um exemplo claro de governo democrático mitigado pelo poder da elite instalado no Congresso Nacional e na liderança econômico-financeira do país.
A situação no Brasil chega a ser uma “aberração bizarra”.
Enfim, como Muniz Sodré afirma:
“Num plano distinto da loucura, o estúpido não perde a dimensão cognitiva
nem moral, mas, incapaz de vínculos construtivos, perverte significações e valores como democracia,
liberdade e outros. Entre nós, isso tem se concretizado na boçalidade bolsonarista. É um fenômeno que banaliza a náusea sartreana na figura do eleitor da antidemocracia, besta quadrada da manipulação algorítmica, que vota bovinamente no pasto do nojo moral.”
Vamos às eleições. No momento, é a faca de dois gumes que temos para proteger a nossa frágil e ameaçada democracia.
Aleilton Fonseca é escritor, poeta, professor e atual presidente da Academia de Letras da Bahia
