Entre Ilhas leva cinema baiano realizado por mulheres ao arquipélago de Cairu
Mostra itinerante reúne filmes realizados por mulheres e percorre Boipeba, Cairu e Canavieiras, no arquipélago de Cairu. Na última parada, a tela chega aos bares flutuantes às margens do Rio do Inferno.
Fazer o cinema produzido na Bahia circular pela própria Bahia. É desse movimento que nasce Entre Ilhas: Mulheres, Memórias e Territórios do Cinema Baiano, mostra itinerante realizada pelo Cineclube Itinerante Cine Patachoca entre os dias 24 e 26 de setembro, atravessando Velha Boipeba, Cairu e Canavieiras, no Baixo Sul da Bahia.
Aqui, a itinerância não é apenas um modo de levar filmes de um ponto a outro. Ela faz parte da própria experiência da mostra. Para chegar às comunidades, filmes, equipamentos e equipe atravessam as águas do arquipélago, seguindo caminhos que fazem parte da vida cotidiana de quem habita esse território.
No centro dessa travessia está uma curadoria dedicada ao cinema baiano contemporâneo realizado por mulheres, reunindo obras de Carol Aó, Vilma Martins, Camila Ribeiro, Milena Anjos, Safira Moreira e Everlane Moraes.
A programação apresenta O Céu Não Sabe Meu Nome, de Carol Aó; 5 Fitas e Bárbara, de Vilma Martins; Jussara, de Camila Ribeiro; A Cor da Patroa, de Milena Anjos; Travessia, de Safira Moreira; e A Gente Acaba Aqui, de Everlane Moraes.
São filmes que, a partir de diferentes linguagens, aproximam-se de memórias familiares, ancestralidade, infância, relações raciais, afetos, identidade e território. Em comum, carregam olhares que deslocam imagens cristalizadas sobre a Bahia para revelar experiências mais íntimas e singulares de quem vive, lembra, inventa e constrói seus territórios.
Cinema pelas águas do Rio do Inferno
Se a curadoria fala de memória e território, a própria circulação do Entre Ilhas transforma a geografia do arquipélago em parte da mostra.
Depois de passar pela Praça da Matança, em Velha Boipeba, no dia 24, e pela Praça da Bandeira, em Cairu, no dia 25, o circuito segue, no dia 26 de setembro, para Canavieiras.
É ali que a itinerância encontra uma de suas imagens mais fortes.
Localizada às margens do Rio do Inferno, Canavieiras é uma comunidade cuja vida está profundamente relacionada às águas. Para chegar e sair, o rio é caminho. Em vez de deslocar essa experiência para um espaço convencional de exibição, o Cine Patachoca faz o movimento contrário: é o cinema que vai ao encontro do território.
A tela será instalada nos bares flutuantes de Canavieiras, transformando um espaço já atravessado pela convivência comunitária em sala de cinema a céu aberto.
O Entre Ilhas parte também de uma questão sobre circulação. Uma parcela importante do cinema independente produzido no estado percorre festivais e mostras, mas ainda encontra poucos caminhos para chegar às pequenas cidades, vilas e comunidades da própria Bahia.
Para o Cine Patachoca, descentralizar o cinema não significa apenas deslocar uma projeção geograficamente. Significa criar condições para que outras pessoas possam encontrar essas imagens, reconhecer experiências, conhecer outras narrativas e participar da conversa produzida por elas.
É nesse encontro que a curadoria se completa.
Os filmes deixam de circular apenas entre espaços especializados e encontram crianças, jovens, trabalhadores, pescadores, marisqueiras, famílias e moradores de comunidades onde o acesso às salas e aos circuitos tradicionais de cinema é limitado.
O movimento é simples e, ao mesmo tempo, fundamental: fazer o cinema baiano atravessar a Bahia.
Bolhas anunciam que o cinema está chegando
Antes das sessões, outra intervenção atravessará as comunidades.
A artista Vanda Cortez, idealizadora do Borbulhando, realizará com a Palhaça Serafina uma convocatória em forma de cortejo com bolhas de sabão gigantes.
Desenvolvido há nove anos, o Borbulhando trabalha o brincar, a comicidade, a experimentação e a poesia como formas de ocupar e produzir relações no espaço público.
No Entre Ilhas, as bolhas funcionam também como anúncio: percorrem a comunidade convidando crianças, famílias e moradores a seguirem em direção à tela.
Uma travessia construída coletivamente
Há três anos, o Cineclube Itinerante Cine Patachoca circula pelas comunidades do arquipélago de Cairu levando cinema brasileiro, baiano e independente para lugares fora dos circuitos tradicionais de exibição.
O trabalho é realizado de forma independente e se sustenta também por uma rede formada por moradores, associações, comerciantes, pequenos empresários e parceiros locais que ajudam a fazer equipamentos, telas e filmes atravessarem as águas.
No Entre Ilhas, essa experiência ganha uma nova rota.
Uma rota em que mulheres realizadoras colocam outras imagens da Bahia em circulação e em que o cinema segue pelas águas para encontrar públicos que raramente conseguem chegar até ele.
No dia 26, quando a tela acender nos bares flutuantes de Canavieiras, às margens do Rio do Inferno, talvez a imagem mais simples seja também a que melhor explique essa experiência:
o cinema não espera o público chegar. Ele atravessa as águas para encontrá-lo.
PROGRAMAÇÃO
24 de setembro — Velha Boipeba
Praça da Matança — 17h30
25 de setembro — Cairu
Praça Marechal Deodoro
26 de setembro — Canavieiras
Bares flutuantes, às margens do Rio do Inferno
Entrada gratuita.
O Entre Ilhas: Mulheres, Memórias e Territórios do Cinema Baiano foi contemplado pelo Edital Municipal nº 03/2026 – Mestres Pedro e Paulo do Toco, da Secretaria Municipal de Cultura de Cairu, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB).
Realização e curadoria: Cineclube Itinerante Cine Patachoca
Levamos o cinema às ilhas e as ilhas para o cinema.
