“Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro” retorna ao Teatro Xisto Bahia com história real de feminicídio que chocou Salvador
Espetáculo resgata um dos crimes mais emblemáticos da Salvador imperial e transforma a memória de uma jovem assassinada em um alerta contra a violência de gênero. Apresentação acontece no dia 7 de novembro, às 19h.
Uma história de amor, ciúme, violência e morte que atravessou quase dois séculos volta à cena para provocar reflexões urgentes sobre o presente. Após uma temporada de sucesso e atendendo a pedidos do público, o espetáculo “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro” retorna ao Teatro Xisto Bahia, no sábado, 7 de novembro, às 19h. Com texto e direção do professor, psicólogo e escritor Adson Brito do Velho, a montagem recupera um episódio real que abalou a sociedade baiana em 1847 e lança luz sobre uma questão que continua a exigir atenção: o feminicídio.
Ambientada no Brasil Império, a peça revisita o assassinato de Júlia Clara Fetal, jovem de 20 anos morta pelo próprio noivo, o professor João Estanislau da Silva Lisboa, depois de decidir romper o relacionamento. O crime ficou conhecido como “O Crime da Bala de Ouro” e entrou para a história de Salvador pela brutalidade e pela repercussão que alcançou em todo o país.
Quase 180 anos depois, a história ganha novos contornos no palco. Mais do que reconstituir um acontecimento do passado, o espetáculo convida o público a refletir sobre as relações abusivas, o ciúme possessivo e a violência contra as mulheres. A narrativa evidencia como comportamentos de controle e dominação podem assumir consequências devastadoras, reafirmando que nenhuma motivação justifica o assassinato de uma mulher.
A força da montagem também se revela na conexão estabelecida com a memória da cidade. Nas apresentações anteriores, o espetáculo despertou o interesse do público baiano e chegou a receber integrantes da família Fetal, que compareceram às duas últimas sessões e aprovaram a encenação.
Teatro, memória e reflexão
Com 50 minutos de duração, a montagem combina interpretação teatral, ambientação de época e música clássica para transportar o espectador à Salvador do século XIX. A condução de um mestre de cerimônias e o trabalho de quatro atores constroem uma narrativa marcada pelo suspense e pela dramaticidade.
O desenho de luz, assinado por Eduarda Pires, contribui para a atmosfera cênica, enquanto a trilha sonora reúne obras de compositores como Franz Schubert, Johann Strauss e Frédéric Chopin. Os figurinos, concebidos por Orlita Cruz, ajudam a reconstituir visualmente o período histórico, em um trabalho que dialoga com a experiência internacional da artista, desenvolvida em instituições culturais de Buenos Aires, na Argentina.
A montagem também abre espaço para o diálogo com o público. Em razão da temática, será franqueada a palavra a quem desejar compartilhar depoimentos e reflexões sobre a violência contra as mulheres e os relacionamentos tóxicos. A proposta amplia a experiência teatral, transformando a apresentação em uma oportunidade de escuta e conscientização.
Um crime real que marcou a história da Bahia
Nascida em 1827, Júlia Clara Fetal era filha do comerciante português João Batista Fetal e da francesa Juliette Fetal. Educada segundo os padrões da aristocracia europeia da época, dominava o francês, estudava inglês e demonstrava talento para o piano, o desenho, o bordado e a pintura.
Seu noivo, João Estanislau da Silva Lisboa, nasceu na Índia, em 1819, e chegou a Salvador ainda criança. Formado em Letras, tornou-se professor de Geografia e Inglês no Liceu Provincial da Bahia. Segundo os registros históricos que inspiram a peça, o comportamento ciumento e descontrolado do professor esteve relacionado ao crime, em meio a suspeitas de infidelidade que ele atribuía à noiva.
O caso teve grande repercussão. Em 28 de setembro de 1847, João Estanislau foi condenado a 14 anos de prisão, pena que cumpriu no Forte do Barbalho, em Salvador. A história chegou a despertar o interesse do imperador Dom Pedro II, que visitou o condenado e lhe ofereceu o indulto imperial. Segundo o relato histórico apresentado na pesquisa que fundamenta o espetáculo, o réu recusou o perdão e afirmou que desejava cumprir integralmente a pena.
A dramaturgia se apoia em pesquisa documental e histórica, com licença poética própria da linguagem teatral. Entre as principais referências está o livro “A Bala de Ouro – História de um Crime Romântico”, de Pedro Calmon, publicado em 1947, além de informações atribuídas a registros do Tribunal de Justiça da Bahia e a periódicos da época, como o Correio Mercantil e o Diário de Pernambuco.
Direção e elenco
Professor, escritor e diretor teatral, Adson Brito do Velho assina o texto e a direção da montagem. É autor dos livros “Salvador tem Muitas Histórias”, “Quem tem Medo da Mulher de Roxo?” e “Os 171 bairros de Salvador e as Origens dos seus Nomes”. Em sua trajetória artística, dirigiu diferentes montagens na capital baiana, incluindo “A Falecida”, de Nelson Rodrigues, apresentada na Escola de Teatro da UFBA, e “A História do Zoológico”, de Edward Albee.
O elenco reúne Eobelle Rocha, no papel de Júlia Fetal; Alexandro Beltrão, como o professor João Estanislau da Silva Lisboa; Orlita Cruz, como Juliette Fetal, mãe de Júlia; Sofia Bonfim, como a mucama Leonor; e Adson Brito do Velho, como mestre de cerimônias.
Ao recuperar um episódio marcante da história de Salvador, “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro” reafirma o papel do teatro como espaço de memória, questionamento e transformação. Uma história do século XIX que continua a provocar perguntas no século XXI e a lembrar que combater a violência contra as mulheres é uma responsabilidade coletiva.
SERVIÇO
Espetáculo: Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro
Texto e direção: Adson Brito do Velho
Data: 7 de novembro de 2026 (sábado)
Horário: 19h, pontualmente
Duração: 50 minutos
Local: Teatro Xisto Bahia – Rua General Labatut, 27, anexo da Biblioteca Pública do Estado, Barris, Salvador
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Vendas e reservas: Bilheteria do teatro, reservas pelo telefone (71) 98631-3242 e plataforma Sympla
Elenco: Alexandro Beltrão, Sofia Bonfim, Orlita Cruz, Eobelle Rocha e Adson Brito do Velho
Imagens: Lízia Cardoso
Assessoria de Imprensa – Doris Pinheiro
