Macondo sempre esteve em mim. Por José Inácio Vieira de Melo
Li “Cem Anos de Solidão” pela primeira vez aos quinze anos. Voltei a ele seis vezes. Sete leituras, portanto — e há muito de cabalístico nesse número. Em cada retorno, o livro era outro, porque eu também já era outro. Li em português e no espanhol original de Gabriel García Márquez. Li em voz alta, palavra por palavra, procurando ouvir a música de Gabo, a cadência de sua prosa, esse modo extraordinário de fazer o cotidiano atravessar o mito e o mito retornar à realidade.
Também li o livro em voz alta com meus dois filhos, Carlos Moisés e Gabriel Inácio, quando cada um completou dezoito anos. Talvez porque os livros que realmente nos formam não sejam apenas livros: são heranças.
Em 2018, fiz uma espécie de peregrinação pelas plagas de Gabo. Estive em Cartagena, no Caribe, e entrei pelo continente, passando por María La Baja, onde participei de um festival de bullerengue, e por outros lugares do interior colombiano. Durante quinze dias, convivi com pessoas cuja fala, cujo sotaque e cuja música pareciam carregar ainda a voz de García Márquez. Estive também na Universidade de Cartagena, onde estão o busto e as cinzas do escritor. Voltei trazendo um chapéu e uma mochila exatamente iguais aos usados, na série, pelos gêmeos Aureliano Segundo e José Arcadio Segundo. Não eram souvenirs, mas relíquias de uma peregrinação ao território de um escritor que, desde os quinze anos, já habitava em mim.
Agora, diante da série, o que mais me impressiona não é propriamente ver Macondo na tela. É reconhecê-la. Eu me senti em casa. Macondo é minha casa.
Nasci em Olho d’Água do Pai Mané, município de Dois Riachos, Alagoas, na divisa com Pernambuco. Quando nasci, em 1968, o povoado já tinha o açude do Pai Mané, construído pelo DNOCS. Meu pai, aos doze anos, ajudou a construí-lo, trabalhando ali por uma questão de sobrevivência. As casas se voltavam para a água, os quintais davam para o açude. De um lado e de outro, famílias inteiras, parentes entre si, ligadas pela mesma água e pela mesma história — até que um lado brigou com o outro.
Quando encontrei Macondo, reconheci aquele lugar. Não apenas pela geografia, mas por uma espécie de arquitetura da memória. José Arcadio Buendía imaginou seu povoado; eu já trazia o meu. Gabo parecia ter chegado antes de mim a um território que eu só descobriria aos quinze anos.
Meu pai, Aloísio Vieira de Melo, era filho de Olho d’Água do Pai Mané. Somos descendentes do português capitão Domingos Vieira de Melo Sá e da africana escravizada Maria Tetê. Minha mãe, Inácia Rodrigues de Santana, era pernambucana, descendente de holandeses com os índios Fulniôs de Águas Belas, Pernambuco. Quando olho para essa mistura de sangues, compreendo por que “Cem Anos de Solidão” me alcançou tão profundamente. A América Latina é feita desses encontros, desencontros, violências, sobrevivências e memórias.
Aos quinze anos, descobri que era de Macondo. Descobri também que “Cem Anos de Solidão” podia ser uma espécie de Bíblia do homem latino-americano: um livro onde estão transfigurados nossos mitos, guerras, famílias, mortos, repetições e ruínas. Macondo é qualquer lugar da América Latina. É o sertão. É Olho d’Água do Pai Mané.
E há outra coisa que me aproxima dos Buendía: os nomes. Em Macondo, José Arcadio e Aureliano retornam de geração em geração; Aureliano Segundo e José Arcadio Segundo, os gêmeos, levam essa repetição ao limite. Na minha família também é assim.
Meu avô chamava-se Moisés. Meu filho mais velho é Carlos Moisés: Moisés por causa do avô; Carlos por causa do meu irmão mais velho, José Carlos. Meu caçula é Gabriel Inácio. Gabriel vem de um amigo que se tornou meu compadre e padrinho; Inácio vem de mim, e o meu Inácio vem de minha mãe, Inácia. Mais tarde, esse amigo-compadre teve um filho e lhe deu o nome de Inácio. Os nomes continuam andando.
Em meus irmãos, a repetição também se prolonga: Ivaldo tem um filho Ivaldo Filho e outro Aloísio, nome de nosso pai; José Carlos tem Caroline e outro José Carlos; meu irmão caçula recebeu o nome de nosso pai, Aloísio Júnior, que por sua vez tem uma filha Gabriela. Tudo está entrelaçado. Como em Macondo, os nomes são formas de permanência.
Há também, na minha família, essa zona que em outros tempos se chamava simplesmente loucura. Úrsula reconhece na estirpe dos Buendía uma casa de loucos. Na minha família também há parentes atravessados por desvarios, paixões cegas e esquecimentos. Talvez aquilo que hoje compreendemos por outros nomes — inclusive o Alzheimer — outrora fosse percebido apenas como loucura, perda da razão, afastamento do mundo.
Minha Macondo também mudou com o tempo. A partir dos meus cinquenta anos, outras experiências entraram nessa paisagem. Meu pai viveu sete anos preso a um corpo que já não lhe permitia se expressar, embora sua consciência permanecesse sóbria. Minha mãe, Inácia, vive atravessada pelo Alzheimer. Já não sabe quem é, nem onde está — quer apenas voltar para casa e cuidar dos meninos.
Foi então que compreendi de outra maneira a solidão de Gabo. A solidão não é simplesmente estar sozinho. É também o esquecimento: permanecer diante de alguém enquanto alguma coisa essencial dessa pessoa se afasta para um lugar onde não conseguimos alcançá-la.
Por isso a peste do esquecimento em Macondo me toca tão profundamente. Não a leio apenas como invenção do realismo mágico. Reconheço nela uma experiência humana. Há momentos em que o mundo perde seus nomes; pessoas permanecem diante de nós enquanto suas histórias começam a desaparecer.
Talvez por isso a série tenha me atingido. Eu carregava Macondo dentro de mim havia mais de quarenta anos. Conhecia seus personagens, guerras, amores, mortes e retornos. Tinha ouvido tantas vezes a música do espanhol de Gabo que aquelas palavras já faziam parte da minha respiração.
Quando Macondo apareceu na tela, não senti que estava chegando. Senti que estava voltando.
A série dá corpo àquilo que durante décadas pertenceu à imaginação dos leitores. Mas nenhuma câmera alcança inteiramente a Macondo que cada leitor constrói dentro de si. A minha já tinha açude, sertão, parentes e nomes que retornavam. Muito mais tarde, ganhou também o silêncio de meu pai e o esquecimento de minha mãe.
Foi lendo Gabo que comecei a compreender que o tempo não é uma linha reta. O tempo retorna. Os mortos permanecem. Os nomes se repetem. As histórias recomeçam com outros rostos. O mundo é uma espiral.
Essa descoberta atravessou minha poesia. Em “Um Parêntesis para Sempre”, carrego a ideia de que a existência é um intervalo aberto para aquilo que não termina. Um parêntesis que acolhe a vida, a memória, a morte, o amor e a palavra — e permanece aberto diante do infinito.
Talvez seja essa a minha grande conversa com Gabo.
Aos quinze anos, descobri Macondo. Aos cinquenta e oito, sei que nunca saí de lá. Macondo estava na água do açude do Pai Mané, nos nomes que atravessam gerações, no sangue de meus pais, na Colômbia que atravessei em peregrinação, no sertão, na memória. E está na minha poesia.
Sou poeta do sertão cósmico. E continuo acreditando que o mundo não foi feito para a gente permanecer parado diante dele. “O mundo foi feito pra gente andar” — na memória, no tempo, na palavra, na esteira do infinito.
@jivmpoeta
José Inácio Vieira de Melo é poeta, jornalista e agitador cultural
