Sonzaço! Andar com fé eu vou. Por Renato Queiróz
Gil escreveu isso em 1982. O Brasil ainda engatinhava de volta à democracia. Gil não fez marcha de vitória. Fez canção de caminhada. A diferença importa.
Senta que lá vem História!
A gente está a poucos dias da eleição mais importante do Brasil. E essa canção chega na reta final como recado do povo. Há esperança, há solução, ainda temos saída.
Tem música que é só som. E tem música que é profecia. Andar com Fé é das duas coisas.
O refrão tem um erro proposital. Gil trocou falhar por faiá pra imitar o jeito de falar do povo simples, que nem sempre conjuga verbo do jeito que a gramática manda. Isso não é descuido. É respeito.
A fé que Gil canta não mora nos livros. Mora na boca de quem levanta antes do sol, pega transporte, muitas vezes lotado, sustenta o país com o próprio suor e ainda encontra tempo pra acreditar que amanhã melhora.
E tem sol. Tem sol na rua, tem sol no olhar de quem levanta cedo e ainda acredita. Na tela acesa do celular, e às vezes da TV, na mensagem que chega, no vídeo que o povo compartilha como um produto.
Nesse momento, a rua e as redes se tornam nossas.
Não tem nada ganho, mas também não tem nada perdido. Segundo turno se decide no calor de gente, não no frio de planilha. É olhar no olho de quem tá no corre e sentir a firmeza do abraço na rua. É responder a mensagem de quem tá longe e saber que aquele apoio pode ser nosso.
Ninguém se entrega no meio da caminhada. Quando o vento sopra contra, é aí que a gente firma o pé no chão. Andar com fé é botar o pé na rua e ir, mesmo sem garantia nenhuma de que o chão não vai fugir.
Nossa força nunca veio do salto alto. Veio da sola do sapato, do afeto semeado em cada canto. Vem também de cada story postado, de cada áudio no grupo, de cada corrente que o povo puxa sem medo.
A letra de Gil espalha a fé em lugares onde muita gente procuraria. Na mulher. Num pedaço de pão.
Outro dia eu ouvi no rádio um senhor, voz cansada, dizia que não sabia se ia dar tempo de ver a virada, mas que ia votar de qualquer jeito, porque queria deixar um país melhor pros netos.
Seu Aparecido. Não lembro a cidade. Fiquei em silêncio. O rádio ficou ligado, troquei de estação, ouvi um programa qualquer de música. E lá ouvi Andar com Fé.
Aí eu lembro daquele senhor. Aí eu lembro e sigo.
Essa caminhada é sobre proteger a democracia. Sobre chegar em quem mais precisa, em quem pega ônibus lotado, em quem espera vaga no posto, em quem sustenta o Brasil com o próprio trabalho. Uma coisa depende da outra. Quem já esperou numa fila de posto sabe.
Gil diz que a fé acompanha até quem não tem fé. Pelo sim, pelo não. A fé não cobra ingresso. Não pede carteirinha de igreja. Não exige dogma. Ela simplesmente vai junto.
Enquanto houver uma só alma pulsando esperança no nosso país, a gente não para. Corre, abraça, conversa e convence. Manda no grupo, posta no story, compartilha no feed. Cada clique aproxima um voto. E cada pessoa que entra nessa caminhada traz mais gente junto.
A luta vale cada segundo. Olha pra quem tá do seu lado. Sente essa energia. Não é hora de hesitar. É hora de ir pra cima. A virada se constrói no detalhe, na raça, no voto a voto. E também no compartilhar, no comentar, no chamar mais um pra essa caminhada.
Vamos em frente. A gente vai virar esse jogo juntos. A gente vai.
Pensei naquele senhor de novo hoje. Espero que ele assista a virada.
Aqui “Andar com Fé” no álbum “Dois Amigos, Um Século de Música”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, lançado em 2015.
SONZAÇO!
Renato Queiroz é apaixonado pela história da música.
