Sonzaço! Passarinho Urbano: um tesouro de Joyce Moreno que você precisa ouvir. Por Renato Queiróz
Quando o nosso 2026 não pode repetir o passado, para dar uma relaxada, é hora de revisitar um disco que fala muito sobre o Brasil dos anos 70: “Passarinho Urbano”, de Joyce.
Senta que lá vem História
Carioca da gema, nascida no início de 1948, Joyce Silveira Moreno, que por muito tempo o público conheceu apenas pelo primeiro nome, é uma das instrumentistas, compositoras e intérpretes mais refinadas da nossa música.
Ela faz parte daquela safra inconfundível dos anos 1970, época em que um único nome no encarte já bastava para traduzir a força de uma artista.
Joyce dividia esse firmamento com vozes marcantes como Diana, Cláudia, Célia, Vanusa, Amelinha, Simone e Marina.
Em seu primeiro disco, Joyce (1968), pela Philips, causou espanto e recebeu um punhado de críticas com a música “Me disseram”, que trazia os versos: “Já me disseram/ Que meu homem não me ama/ Me contaram que tem fama/ De fazer mulher chorar”.
“Naquela época, uma mulher não podia compor falando como uma mulher. Se fosse o Chico falando como mulher, tudo bem”, diz Joyce.
No entanto, o auge da popularidade no Brasil ocorreu no final dos anos 70 e no início da década de 1980, especialmente com os belos sucessos “Água e Luz”, “Clareana”, “Feminina”, “Monsieur Binot” e “Da cor Brasileira”.
Com o tempo, conheci outros discos dela.
Por esses dias, por acaso, acabei viajando em seu disco “Passarinho Urbano”, gravado em 1975 na Itália e lançado em 1976, e fico sempre encantado, naquele nível de encanto do tipo “preciso falar sobre isso de algum modo”.
Em 1975, Joyce estava em turnê pela Itália com Vinícius de Moraes e Toquinho, quando o produtor Sergio Bardotti propôs a gravação de um disco que contemplasse certa urbanidade brasileira.
Em meio à ditadura militar e à forte censura artística, Joyce escolheu um repertório de grande força política, que fala sobre a violência, a fome e a dura vida do brasileiro.
Gravado basicamente em voz e violão, com alguns elementos percussivos, “Passarinho Urbano” reúne faixas de Milton Nascimento, Edu Lobo, Caetano Veloso, Zé Keti, Capinan, Mauricio Tapajós, Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola e Chico Buarque, em grande parte faixas que haviam sido censuradas pelo governo militar.
Joyce, que é uma grande compositora, nesse trabalho assina apenas a faixa “Passarinho”, que transforma em canção o clássico poema de Mario Quintana.
O disco traz na capa uma ilustração de uma mulher negra, de black power, bebendo uma Coca-Cola, escolha curiosa para uma cantora branca de cabelos negros e lisos, nascida e criada na zona sul carioca, que aqui canta sobre temas que não são necessariamente sua realidade.
A imagem conversa com os versos de “Joia”, faixa de Caetano Veloso que abre o disco: “A menina muito contente/ Toca a Coca-Cola na boca”.
Com 18 faixas,
“Passarinho Urbano”
é construído para ser escutado na íntegra,
já que muitas delas aparecem quase como vinhetas, curtas e certeiras, a encaixar um cenário amplo, que funciona como uma polaroide do Brasil.
Aqui um tesouro de Joyce Moreno que você precisa ouvir
Passarinho Urbano
Ouça sem moderação
Passarinho Urbano é daqueles discos que a gente descobre e quer apresentar para todo mundo.
Intimista, corajoso e afetuoso, gravado em voz e violão no auge da censura, ele continua falando de um Brasil de hoje tanto quanto falava do Brasil de 1976.
Aqui completo
Vale mesmo ouvir e ouvir.
SONZAÇO!
Renato Queiroz é apaixonado pela história da música.
