Mr. Orange e seu baú de jogos. Por Zuggi Almeida
Mr. Orange acordou, fez a higiene matinal e diante ao espelho deu uma escovada com esmero na cabeleira alaranjada deixando seu topete característico levemente direcionado para o lado esquerdo.
Vestiu um roupão presidencial com as abreviaturas MR. O. em filigranas douradas do lado esquerdo do peito. Dirigiu-se á mesa de breakfast.
Comeu ovos mal passados, salsichas, uma porção generosa de bacon, panquecas com mel, torradas e para não fugir à regra, bebeu um copo de suco de laranjas.
A assessoria tinha conhecimento que nas manhãs das sextas-feiras a agenda oficial deveria ser suspensa. Era o momento único de Mr. Orange ou Señor Naranja : como insistia chama-lo um dos seus garçons latinos em conversas privadas com amigos no depósito da cozinha presidencial.
O dia era reservado para o recolhimento de Mr. Orange e seu baú de jogos de tabuleiro. Mr. Orange sempre foi um aficionado por jogos e colecionava diversos desde à infância. O baú guardava algumas cartelas de batalha naval, um jogo muito disputado quando Mr. O. frequentava a high school.
Porém,dois jogos tinham a atenção especial de Mr. Orange: um era o Banco Imobiliário conhecido como Monopoly na versão americana, o outro War. Ambos jogos voltados para conquistas, domínios e simulação de poder.
Mr. O. sempre fez da vida um grande jogo onde a sorte predominou, e o privilégio abriu o sorriso quando o garoto tinha 8 anos de idade já sendo milionário,e herdeiro de grande fortuna.
Mr. O. cresceu na vida jogando com apostas de altos cacifes amparadas pela segurança financeira. Na prática, Mr. O. transformou em realidade toda ludicidade do jogo Monopolity.
Não por acaso, o segmento dos cassinos e jogos de azar catapultou a carreira financeira de Mr. O.
As manhãs das sextas – feiras funcionavam como espécie de terapia ocupacional para Mr. Orange associada à diversão.
Os últimos tempos, foram dedicados por Mr. Orange a divertir-se com o War, um clássico jogo de estratégia e conquista territorial lançado em 1972 para 3 ou 6 jogadores. Objetivo do War é cumprir missões secretas, como conquistar territórios, destruir exércitos adversários usando dados de batalha. Desde que ocupou o gabinete presidencial Mr. Orange decidiu praticar o War sozinho, sendo jogador e adversário ao mesmo tempo.
Evidente que a privacidade do jogador permitia o uso das práticas ilegais, sendo privilegiado com vitórias seu lado trapaceiro.
Mr.O. sempre acostumado a chegar as vitórias de modo fácil não percebeu que em tempos mais recentes mesmo sendo jogador único, as peças do War já não atendiam todas as suas vontades.
Foi-se tornando-se cada vez mais difíceis vencer no jogo.
Seria mais uma manhã de sexta-feira comum na vida de um jogador habituado a vencer.
As primeiras partidas disputadas por Mr. Orange reservaram derrotas inexplicáveis. Ele insistiu, e foi tomado por um início de crise de ansiedade, pois bastava tirar os olhos do tabuleiro e quando percebia, as peças tinham mudado de posições.
A cólera foi dominando Mr. Orange e os primeiros ‘shits’ foram pronunciados em baixo volume.
As derrotas seguidas foram acontecendo e os palavrões aumentando, a ponto de serem ouvidos por seguranças do outro lado da porta do quarto. Urros dominaram o ambiente. Mr. Orange atirou o tabuleiro do War de encontro a parede, correu até o telefone e exigiu que o helicóptero oficial fosse preparado de imediato.
No começo da tarde, o homem do cabelo alaranjado voou para sua casa de veraneio na Flórida.
Na manhã do sábado , uma equipe de psicólogos e psiquiatras estava reunida para um diagnóstico do estado atual da saúde mental de Mr. Orange.
Até aquele momento, Sr. Laranja não tinha percebido que três adversários poderosos e invisíveis estavam instalados há um bom tempo do outro lado do tabuleiro do War.

