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Matita Perê: raro CD de estreia enfim nas plataformas. Por Renato Queiróz

4 - 5 minutos de leituraModo Leitura

Que boa notícia na Aldeia!
Gravado no ano de 2001 em Salvador, o primeiro registro de estúdio do grupo baiano Matita Perê — intitulado Matita — chegou aos principais serviços de streaming de música no dia 30 de abril de 2026.

Senta que lá vem História!

Há exatos 25 anos, o álbum Matita foi gestado no estúdio Som da Águas, sob os cuidados técnicos de Bráulio Villares e Ramos de Jesus, com o propósito de ser o CD demo que condensaria, em poucas faixas, a proposta artística do grupo.

Copiado artesanalmente em mídias de CD e distribuído gratuitamente nos primeiros anos, o disco — que reúne oito faixas, sete delas autorais — ganhou vida própria e, sobretudo, o coração dos ouvintes. Foi essa acolhida que fez com que o grupo decidisse, agora, por lançá-lo de forma oficial.

Antes mesmo deste lançamento digital, o álbum já ajudara a fidelizar um público para o Matita Perê, que também recebeu, por este trabalho, elogios de grandes artistas, como Wagner Tiso, Danilo Caymmi e Roberto Menescal.

Apesar de ter sido gravado em apenas dois dias e mixado na manhã do terceiro, Matita (2001) atingiu surpreendente qualidade musical.

O álbum traz a energia sonora dos primeiros anos do grupo, formado em julho de 1999 pelos compositores Borega e Luciano Aguiar. Com baião, samba e balada, o trabalho apontava, desde então, o caminho de complexidade harmônica e melódica que o Matita Perê, de forma natural, sempre trilhou — com o pé fincado nas raízes da música popular brasileira.

No estúdio, os matitas Borega e Luciano contaram, em todas as faixas, com músicos e amigos irmanados que, por anos, acompanharam o projeto: o baterista George Soares, o contrabaixista Augusto Júnior e o flautista João Liberato.

Importante citar ainda a participação do percussionista Giba Conceição, que, por uma feliz coincidência, apareceu no estúdio naqueles dias e acabou tocando cuíca e berimbau na faixa instrumental “Samba dos Alfaiates da Misericórdia” (de Borega).

Abre o disco o baião “Rosiana”, parceria de Borega e Luciano Aguiar que evoca o universo da obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A canção — vale ressaltar — recebeu nova versão no segundo álbum oficial do grupo, Reino dos Encourados (2017), já com a participação do novo integrante, o compositor e maestro Rafael Galeffi, que chegou em 2014.

Também compõe o CD de 2001 outra parceria da dupla Borega e Luciano, “Tão Longe e Tão Perto de Jobim”, uma homenagem ao maestro soberano. Luciano Aguiar assina sozinho a mineira “De Itajubá”, “Mão a Palmatória” e o baião “Triângulo”. Borega é responsável por outra faixa instrumental do CD, intitulada “Budi”.

Além disso, Borega também é o arranjador do disco, que traz uma versão muito original para “Só Louco” (Dorival Caymmi) — única faixa de outro compositor que integra a obra e que contribuiu para aproximar os matitas de grandes músicos brasileiros já citados anteriormente, de quem eles são fãs.

O Matita Perê consolidou-se como um dos nomes mais sofisticados da cena musical baiana ao longo de seus mais de 25 anos de estrada.

Formado atualmente pelo trio Borega, Luciano Aguiar e Rafael Galeffi, o grupo desenvolve um trabalho autoral que transita entre o erudito e o popular, fundamentado em uma sonoridade que eles próprios definem como um “sertão musical”.

Essa estética bebe diretamente da fonte de grandes mestres da MPB, como Dorival Caymmi e Luiz Gonzaga, mas mantém uma conexão profunda com a harmonia moderna de Tom Jobim — influência que se reflete até no nome do grupo, inspirado no pássaro matita-perera.

A trajetória fonográfica da banda, embora marcada por lançamentos espaçados, revela uma dedicação meticulosa ao arranjo e à poesia.

O álbum Matita, gravado originalmente em 2001 e disponibilizado agora nas plataformas digitais, serve como um documento histórico do início do trio, apresentando composições que homenageiam o universo jobiniano e exploram a riqueza melódica brasileira.

Já em 2017, o grupo lançou Reino dos Encourados, disco que celebrou a obra do compositor e artista plástico Giberval Melo.

Este trabalho reafirmou a identidade do Matita Perê ao fundir ritmos tradicionais, como o baião, a uma instrumentação refinada e poética, evidente em faixas como “Baião Bachiado”.

A força do grupo reside na união das trajetórias individuais de seus integrantes, que são pesquisadores de ritmos e mestres na sofisticação harmônica.

Enquanto Borega traz a herança artística de seu pai (Giberval Melo), Luciano e Rafael complementam a formação com um rigor técnico que permite ao grupo musicar universos literários complexos, como o de Guimarães Rosa na canção “Rosiana”.

Atuando com frequência em palcos emblemáticos de Salvador, como a Varanda do Sesi, o Matita Perê permanece como um guardião de uma MPB atemporal, valorizando as raízes regionais por meio de uma linguagem musical universal e contemporânea.

A boa novidade é a pérola: o lançamento oficial do disco Matita, do grupo Matita Perê
Dia 30 de abril
Nas plataformas digitais!

Vale mesmo ouvir sem moderação, só SONZAÇO!

Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música

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