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Sonzaço! A diáspora dançante de DjeuhDjoah & Lieutenant Nicholson. Por Renato Queiróz

3 - 4 minutos de leituraModo Leitura

Quando o som da primeira batida four-on-the-floor ecoa, não estamos apenas ouvindo música; estamos presenciando um manifesto geopolítico camuflado de groove.

Senta que lá vem História!

No caldeirão multicultural de Paris, onde as esquinas transpiram a tensão e a beleza da imigração, nasceu o som da dupla DjeuhDjoah & Lieutenant Nicholson.

O duo é formado por Gildas Lassaye (DjeuhDjoah), nascido na França e com profundas raízes familiares em Camarões, e Nicolas Voulzy (Lieutenant Nicholson), nascido em Paris.

O que eles fazem vai muito além do entretenimento: trata-se de antropologia sonora em sua forma mais pura, uma costura ancestral que une a tradição da tradicional canção francesa com a pulsação mística e rítmica da África e das Américas.

Tudo começou no asfalto, nas quadras de basquete da periferia parisiense durante a adolescência, onde os dois se conheceram jogando partidas casuais.

Dali, a cumplicidade esportiva transmutou-se em alquimia musical.

O resultado?

O conceito de “chanson afropéenne” (canção afropéia), uma identidade estética que desafia as fronteiras eurocêntricas e reivindica o protagonismo negro e diaspórico na música contemporânea.

No manifesto: “T’es qui ?” de 2015 (relançado como “Remets T’es qui ?” em 2016), a dupla lançou seu cartão de visitas ao mundo com uma pergunta direta e provocativa: “T’es qui ?” (“Quem é você?”).

Este EP de estreia não é apenas um compilado de faixas dançantes; é um organismo vivo, composto por elementos técnicos sofisticados e mensagens poéticas urgentes.

Para compreender a arquitetura desse EP, é preciso dissecar os seus principais componentes e viajar.

A batida four-on-the-floor é o coração rítmico do EP. O bumbo da bateria marca firmemente os quatro tempos do compasso, evocando o transe das pistas de disco music dos anos 70 e as cerimônias rítmicas de matrizes africanas.

As linhas de baixo são arrebatadoras! O groove é a espinha dorsal. É o baixo elétrico bem trabalhado, nas mãos do músico Honky Tonk Man (Grégoire Mahé), que conduz o ouvinte pelo corpo, sustentado pela bateria precisa de Jeff Ludovicus, transformando o ato de dançar em um rito de libertação espiritual e física.

Os arranjos orquestrais e eletrônicos das cordas clássicas e sopros grandiosos (trompetes e saxofones) dividem espaço com sintetizadores futuristas e produção analógica.

É o passado e o futuro colidindo na mesa de som de Lieutenant Nicholson.

As letras poéticas e com identidade, cantadas em francês e crioulo (principalmente de matriz antilhana), usam jogos de palavras e ironia fina para tratar de assuntos densos.

A dupla canta sobre ancestralidade, ecologia e mudanças climáticas (como na emblemática faixa “El Niño”, do álbum Aimez ces airs de 2019), provando que o corpo que dança também é o corpo que pensa e resiste.

A sonoridade é uma ponte afropéia que reconecta continentes. É um abraço atlântico de muita conexão com o Brasil.

Para nós, que respiramos a cultura de matriz afro-brasileira, a obra de DjeuhDjoah & Lieutenant Nicholson ecoa de forma ainda mais familiar.

A dupla é declaradamente apaixonada pela musicalidade brasileira, com ecos de Jorge Ben, Tim Maia, samba-rock e bossa nova que aquecem os invernos cinzentos da Europa.

Essa conexão se materializa também em faixas como “Caipirinha” (do álbum 2+ de 2022), um suave tributo à bossa nova e ao sonho de um destino quente e doce no meio do frio europeu, uma bossa pura e ensolarada que reafirma o elo transatlântico.

Essa conexão se materializa onde o balanço da bossa nova, do samba novo e do samba-rock é ressignificado. É a prova definitiva de que o Atlântico Negro não separa, mas conecta.

O legado da dupla continuou a se expandir com os elogiados álbuns Aimez ces airs (2019) e 2+ (2022), ambos lançados pelo prestigiado selo Hot Casa Records.

Ao fundir afrobeat, funk, jazz-pop e pitadas eletrônicas, DjeuhDjoah e Lieutenant Nicholson nos oferecem um espelho do mundo atual: híbrido, pulsante e inevitavelmente interconectado.

Ouvir “T’es qui ?” é, no fundo, responder orgulhosamente à nossa própria busca por identidade e ritmo.

Só SONZAÇO!


Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música

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