Aldeia Nagô
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O pulso ainda pulsa. Por Jorge Papapá

6 - 8 minutos de leituraModo Leitura

Nos anos 70, a Liberdade parecia um formigueiro humano.

Gente subindo e descendo ladeiras, vendedores gritando ofertas, meninos correndo pelas ruas, o cheiro de feijão no fogo misturado ao som dos rádios tocando soul, samba, rock, bolero e militância. O bairro inteiro pulsava como um coração negro batendo forte dentro de Salvador.

No fim das tardes, a turma se reunia em frente às lojas Primordial.

Eu, Adelson Espinheira, Haroldo Espinheira, Rui de Brito, Rômulo, Edilson e tantos outros que apareciam de repente, como quem chegava apenas para encostar o corpo numa conversa necessária. A gente falava de música, política, shows, sonhos e sobretudo de Marinho, o grande guitar man da Liberdade, um sujeito que parecia conversar com o mundo através das cordas da guitarra.

A Liberdade era o nosso universo negro.

Um território onde artistas circulavam como personagens de um filme invisível: roupas coloridas, batas africanas, cabelos black power cortando o vento da tarde, corpos livres atravessando o bairro como se cada esquina fosse um palco.

E no meio daquela explosão de blacks impecáveis, surgiu uma figura que parecia vinda de outro tempo: Salvador, o inesquecível Caretinha.

Enquanto todos penteavam o orgulho dos cabelos armados para o céu, Caretinha fez o contrário: deixou o cabelo criar caminhos próprios. Deixou enrolar, embaraçar, crescer rebelde como raiz procurando água debaixo da terra. Ninguém ainda falava em rastafári, ninguém conhecia dreadlocks, mas Caretinha já carregava na cabeça uma espécie de profecia estética.

O bairro estranhava e admirava ao mesmo tempo.

Ele caminhava pelas ruas da Liberdade como um personagem bíblico misturado com guerrilheiro africano, um homem à frente da própria época. Antes de o reggae virar bandeira, antes de Bob Marley atravessar os rádios do Brasil, Caretinha já anunciava silenciosamente outra maneira de existir no mundo.

Ainda vejo Lucinha, irmã de Bonerg, desfilando pelas ruas.

Botas até os joelhos, cabelos loiros longos e rebeldes, roupas psicodélicas, caminhando elegante e firme sem olhar pros lados, enquanto o bairro inteiro parava para vê-la passar. Ela parecia carregar dentro do corpo a própria liberdade que o bairro sonhava.

Foi nesse tempo que ouvi falar pela primeira vez do Grupo Pulsa.

E também quando conheci Tuca de Moraes, lá na entrada da Pero Vaz. Nunca esqueço o primeiro encontro. Tuca cantou pra mim uma música chamada Língua Já. Bastaram poucos versos para eu entender que existiam canções capazes de abrir portas dentro da gente.

A base do Pulsa morava na Pero Vaz.

Bué no baixo, Pedrinho Rego na guitarra, Orlando Pinho e Albenísio Fonseca nas palavras e no canto. Foram esses caras que me empurraram para o mundo do centro da cidade, como quem apresenta um menino ao próprio destino.

O Pulsa teve várias formações ao longo do tempo, músicos entrando e saindo como ondas sucessivas de uma mesma maré criativa. Mas havia uma presença permanente, um eixo em torno do qual tudo girava: Orlando Pinho.

Orlando era mais que líder.

Era chama.

O repertório do Pulsa era arrebatador. Misturava poesia urbana, negritude, rock, ritmos afro-baianos e uma ousadia estética que fazia cada apresentação parecer um ritual. E quando Orlando subia ao palco, o ambiente mudava de temperatura.

Cantando Alzira Boca de Veludo, ele atravessava a cena como um vendaval artístico. Um pano dançava em suas mãos como extensão do próprio corpo, os cabelos voavam livres enquanto ele girava pelo palco numa mistura de cantor, ator e sacerdote profano da música baiana.

A performance de Orlando era inspiradora.

A gente assistia hipnotizado, como se estivesse vendo nascer diante dos nossos olhos uma nova linguagem para a música da cidade. Não era apenas um show. Era um acontecimento. Uma explosão de liberdade ocupando o palco.

E o 2 de Julho era o grande ponto de encontro.

O Bar Mimosa de Santos virou nosso quartel-general.

Ali, entre copos suados de cerveja e pratos de feijão fumegando, aconteciam encontros improváveis e mágicos. Poetas como Antonio Short e Walter César, atores, atrizes, artistas plásticos, desenhistas como Roberto Grisi, músicos de todas as tendências: Alberto Som, Tinho Santana, Leguelé, Helson Hart, Zelito Miranda, Luiz Melodia, Sérgio Sampaio. Loucos iluminados, malucos de rua, intelectuais, sonhadores e boêmios dividiam o mesmo balcão como se a arte fosse uma religião clandestina.

No Mimosa, a cidade pensava alto.

Ali se planejava o próximo show, o próximo manifesto, o próximo amor, o próximo susto da sobrevivência.

Foi também naquele período que nasceu a Associação dos Músicos, responsável por projetos fundamentais como o Mutirão dos Músicos, Música nos Bairros, o Seis e Meia do TCA e tantas outras iniciativas que ocuparam os palcos de Salvador com arte feita na raça.

E o Mimosa estava sempre ali, sustentando tudo como uma mãe generosa.

Mesmo sem dinheiro, a gente comia, bebia uma cervejinha e saía de fininho prometendo acertar depois. Santos fingia dureza, vigiava mais, mas acabava cedendo porque sabia que a fome da rapaziada não era vagabundagem — era sobrevivência. Orlando Pinho, líder do Pulsa e também atendente do bar, era mais compreensivo ainda. Às vezes Vera, sua companheira na época, assumia o balcão com o mesmo sorriso paciente de quem entendia a precariedade dos artistas.

No fim, tudo se resolvia.

E foi assim durante muitos anos.

Do mesmo jeito que o Mimosa acolhia aquela geração inteira, o Pulsa também servia de banda-base para muitos artistas que depois ocupariam os palcos da cidade: Sílvia Patrícia, Carlinhos Cor das Águas, Gerônimo, Chico Gileno, Magno e Tania Aguiar e tantos outros que passaram a frequentar os cadernos de cultura dos jornais baianos.

Antes dos shows, antes da estrada, antes dos palcos, eu ainda trabalhei na Rádio Excelsior da Bahia como repórter cultural do programa Cantadores do Brasil, apresentado por Carlúcio Pereira. Foi ele quem me mandou cobrir o Primeiro Salão do Poema Cartaz, na Cidade Baixa.

Lá fui eu para o Colégio Costa e Silva sem imaginar que aquela pauta mudaria minha vida.

Foi ali que conheci Antonio Short, Alberto Santos, Zal do Carmo e Ametista Nunes.

Aquele salão não era apenas um evento cultural — era uma espécie de portal. A poesia descia das paredes e caminhava entre as pessoas. A Cidade Baixa se abriu diante de mim como um território mágico de invenção e resistência.

Foi ali também que conheci o grupo de teatro Amador Amadeu, o saudoso Arthur Ghuma e tantos outros encontros que foram ampliando minha travessia artística pela cidade. Cada rosto novo parecia acrescentar uma rua dentro de mim. Cada conversa acendia outra janela na minha maneira de enxergar o mundo.

Salvador começava a deixar de ser apenas uma cidade.

Ela virava linguagem.

Virava palco.

Virava música respirando pelas esquinas.

E nessa correnteza fui parar no GEAFRAGA, festival cultural da Fazenda Grande.

Ali conheci Antonio Godi e Lia Spósito.

Nunca mais saíram da minha vida.

Foram eles que me levaram para o teatro.

Compus as músicas da peça Usura Corporation e, sem perceber, comecei ali uma longa caminhada dentro da cena teatral baiana, criando trilhas, fazendo direção musical, emprestando sons aos corpos e às palavras dos atores.

Nunca esqueço da primeira viagem com o grupo Palmares Inaron.

A montagem de Usura Corporation seguiria para Aracaju, no Teatro Pio X. Pegamos a estrada numa Kombi apertada, carregando elenco, figurinos, instrumentos, sonhos e medo. A estrada esburacada parecia não terminar nunca. Cada curva era uma ameaça e uma promessa.

Mas ninguém reclamava.

A juventude também era aquilo:

uma fome de arte maior que o desconforto, maior que o cansaço, maior que a pobreza.

Hoje, quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir o barulho daqueles passos atravessando as ruas da Liberdade. Ainda vejo a fumaça dos bares subindo devagar, os cabelos black desenhando sombras no fim da tarde, Orlando rodopiando no palco com seu pano voando como bandeira de um país inventado pela arte.

Talvez a vida seja isso:

um punhado de pessoas tentando não desaparecer.

E nós não desaparecemos.

Ficamos espalhados pelas músicas, pelos cartazes desbotados, pelas fotografias amareladas, pelos palcos desmontados, pelos encontros no Mimosa, pelas estradas percorridas em kombis cansadas, pelos sonhos que insistiram em sobreviver.

Às vezes penso que aquela Salvador dos anos 70 não acabou.

Ela apenas se escondeu dentro da memória de quem viveu intensamente aqueles dias.

Porque existem épocas que não terminam nunca.

Continuam acesas, como um letreiro invisível sobre a cidade.

E quando a noite cai sobre Salvador, tenho a impressão de ainda ouvir, em alguma esquina da Liberdade, um baixo pulsando ao longe, um poeta recitando versos embriagados, Orlando cantando Alzira Boca de Veludo, e Caretinha atravessando a rua com seus cabelos proféticos — como se o tempo inteiro ainda estivesse acontecendo agora.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

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