Em nome do pai, do filho e do voto. Por Zuggi Almeida
“Pedro era explosivo, mas não era perigoso. O perigo estava em Judas que sorria e beijava no rosto”
- Billy Graham, evangelista americano.
A Marcha para Jesus é um evento cristão ecumênico internacional que reúne diversas denominações evangélicas que ocorre anualmente em milhares de cidades pelo mundo. A cidade de São Paulo, no Brasil reuniu cerca de 37 mil pessoas – conforme dados levantados por órgãos ligados à USP/CEBRAP; na edição de 2026.
O que deveria ser uma celebração religiosa tornou-se palanque político onde candidatos à próxima eleição e autoridades disputaram espaço nos diversos trios elétricos que conduziram a marcha. Figuras como o governador de São Paulo, Tarcísio Freitas (Republicanos), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), além do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça.
O que faz um segmento cristão atrair o interesse de candidatos políticos, e porque o avanço dos cargos ocupados por evangélicos nas mais diversas casas legislativas do país?
Para haver um entendimento desse fenômeno faz
-se necessário ir buscar no passado político do Brasil, mais preciso no período da ditadura militar que imperou do ano de 1964 até 1985.
O início desse texto cita um pensamento do pastor evangélico americano, Billy Graham.
Qual, então a ligação existente entre Billy Graham, a Marcha para Jesus e o interesse de políticos no evento direcionado ao público evangélico?
Billy Graham foi um dos mais famosos evangelistas do século XX. A aproximação do pastor evangélico e a relação histórica com o Brasil foi através de visitas ao país para realização das grandes cruzadas que atraíram multidões. Numa dessa série de eventos realizados na cidade do Rio de Janeiro em 1974, o pastor conseguiu reunir 600.000 fiéis em cinco dias, no estádio do Maracanã.
Billy Graham pregava que o comunismo era a ameaça espiritual e política mortal. Ele alertava sobre o perigo dos líderes comunistas substituírem a adoração a Deus e a lealdade ao Estado. Três pilares sustentavam o pensamento do Billy Graham, a saber: O Comunismo como uma Religião do Diabo, a Bíblia contra o Materialismo e a Defesa da Liberdade.
O poder midiático do pastor americano e os objetivos da ditadura militar no Brasil selou a união da Igreja com a Política. A ditadura militar identificou no pensamento do americano uma poderosa ferramenta ideológica. O regime fez uso das cruzadas evangélicas promovidas pelo pastor para promover o anticomunismo, legitimar sua agenda moral e alinhar o Brasil com a política externa dos Estados Unidos.
A ameaça do comunismo ao cristianismo e a liberdade casava com a Doutrina de Segurança Nacional, isso justificou a repressão aos considerados subversivos, sendo aqueles que não comungavam das propostas impostas pelo regime ditatorial.
A ditadura militar estimulou o apoio evangélico ao regime por meio do anticomunismo e a concessão de privilégios. O governo estimulou incentivos fiscais, facilitou a doação de terrenos públicos para construção de templos, abriu espaço para pautas conservadoras e a inserção de evangélicos nos espaços de poder com religiosos assumindo cargos na direção do governo federal.
Portanto o crescimento evangélico nos espaços de poder foi semeado pela ditadura militar. A pauta defendida por candidatos conservadores seguem a regra do regime extinto, que vislumbrando o momento de retorno de um militar à Presidência articulou um golpe para retomada do controle repressivo às liberdades democráticas, hoje imperando no Brasil.
A participação massiva de evangélicos no Congresso é a sombra nefasta do reacionarismo herdado da Ditadura Militar, os títeres entronizados nos carros de som da Marcha para Jesus são os arautos da política nebulosa tentando sustentar-se no poder nocivo à saúde democrática do Brasil.
Elas invocam o poder supremo citando o “Em Nome do Pai, do Filho e do Voto”.
Vide o Flávio Bolsonaro.
Zuggi Almeida é um cronista baiano
