Sonzaço: O Hino da Bahia – Uma História que o povo canta. Por Renato Queiróz
Senta que lá vem História, e dessa vez é daquelas que a gente sente latejar na alma!
A Independência da Bahia não foi um simples arranco de revolta, foi um vendaval alimentado por ideais federalistas, um sopro emancipador e uma boa dose daquela antropofagia cultural tão nossa, em que se devora o que vem de fora e se transforma em algo genuinamente brasileiro.
Essa luta, mais do que uma batalha local, foi a grande chave para a então província da Bahia fincar seus pés na conturbada construção da unidade nacional. E que conturbação, meus amigos! Uma guerra longa, daquelas que marram fundo no couro e na memória, e que deixou um legado imenso, espalhado feito semente pelo folclore e bordado a ouro nas páginas da nossa história.
Quem vestiu a camisa dessa peleja? O indígena, de arco e flecha e olhar firme; o negro, trazendo na ginga e no batuque a força dos orixás; o descendente português, já com o coração abrasileirado, e a multidão imensa de mestiços.
Todos, juntos e misturados, reconhecidos simbolicamente como os “verdadeiros brasileiros”, os “donos da terra”, que somaram suor, sangue e fé aos demais combatentes. Foi desse caldo profundo que nasceu a nossa independência do jugo português.
Para eternizar tamanha bravura, a Bahia ergueu, com toda a força simbólica, a figura inconfundível da Cabocla e do Caboclo. Mas cuidado: eles vão muito além de meros ícones cívicos. Esses dois são arquétipos vivos, imantados de significado que transbordam religiosidade, sacro e profano, cultura e identidade.
Eles respiram no cotidiano do baiano, estão nos terreiros, nas ruas, na fé e no samba. Por isso, estão presentes em dezenas de municípios: na minha amada Cachoeira, em São Félix, em Santo Amaro, em Itaparica… Em Salvador, fazem morada no Pavilhão Dois de Julho, no aconchegante Largo da Lapinha, onde o povo com orgulho vai buscar força e bênção.
No dia 2 de julho, a cidade inteira para e o coração acelera. Os carros com as imagens do Caboclo e da Cabocla deixam o pavilhão em cortejo solene, rasgando as ruas em direção ao Campo Grande, num trajeto que é pura emoção. E dias depois, a volta acontece numa festa que arrepia: à noite, sob o manto estrelado, orquestras e fanfarras se encontram com charangas e batucadas, num encontro perfeito entre o erudito e o popular.
O Hino da Bahia ecoa forte, entoado por uma multidão que corre, canta e vibra num corre-corre monumental de fazer qualquer um se emocionar até a medula.
Esse hino, que carinhosamente também chamamos de Hino ao Dois de Julho, é uma reverência direta à data máxima do estado: 2 de julho de 1823. Foi nesse dia inesquecível, após uma resistência firmada desde 1821, que a Bahia finalmente rompeu as amarras do jugo português e respirou livre. Sua letra, inspirada e guerreira, é de autoria de Ladislau dos Santos Titara; e a melodia, que embala gerações, saiu da alma musical de José dos Santos Barreto.
Agora, prestem atenção nesta curiosidade que aquece o peito: por longas décadas, o nosso hino estadual viveu um período de “inoficialidade”. Quem reinava absoluto nas festas e nos afetos populares era o Hino ao Senhor do Bonfim, que exercia esse papel com a bênção do povo, mesmo sem o carimbo burocrático do governo. Foi preciso esperar até o dia 20 de abril de 2010, quando a lei estadual n.º 11.901 finalmente tratou de oficializar a canção, e como um sinal do destino, a publicação no Diário Oficial saiu justamente no dia 21 de abril, data que, cá entre nós, empresta um simbolismo ainda mais bonito à história. Mais que um decreto, foi o reconhecimento tardio e emocionado de um símbolo que o povo baiano já entoava com fervor desde muito antes.
E para fechar essa celebração com a chave de ouro que ela merece, que tal embalar esse hino na interpretação da filósofa, maestrina e cantora Catharina Gonzaga? O arranjo primoroso é assinado por Fabrício Cyem; a produção de imagens e a edição, a cargo da talentosa Eva Pires; na percussão, o vigor de Rafael Bolotta; e no piano e na programação, a sensibilidade de Márcio Melgaço. E, para dar aquele axé ancestral, aquele toque sagrado que vem da mata e do terreiro, entra em cena no universo da aldeia nagô, envolvendo tudo em ritmo, memória e encantamento.
Assim, entre solenidade e festa, entre luta e gratidão, a história se faz canto, e o canto se faz eterno.
É o Hino da Bahia — solene, sim, mas com a leveza de quem dança; de memória respeitada, mas com o júbilo de quem vive.
É lindo de viver, porque foi conquistado com suor, guardado com fé e celebrado com amor.
Hino da Bahia
Nasce o sol ao 2 de Julho, Brilha mais que no primeiro!
É sinal que neste dia
Até o sol, até o sol é brasileiro
Nunca mais, nunca mais o despotismo
Regerá, regerá nossas ações!
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros corações!
Salve Oh! Rei das campinas
De Cabrito e Pirajá!
Nossa pátria, hoje livre,
Dos tiranos, dos tiranos não será!
Nunca mais, nunca mais o despotismo
Regerá, regerá nossas ações!
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros corações!
Cresce! Oh! Filho de minh’alma
Para a Pátria defender!
O Brasil já tem jurado
Independência, independência ou morrer!
Nunca mais, nunca mais o despotismo
Regerá, regerá nossas ações!
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros corações!
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros corações!
Um SONZAÇO!
Salve o 2 de Julho! Salve a Bahia! Salve o povo brasileiro!
Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música
