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Por que os Estados Unidos precisam dessa guerra em Gaza. Por Pepe Escobar
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Dando o que Falar
Sex, 17 de Novembro de 2023 05:50

Pepe_EscobarO Sul Global esperava o Alvorecer de uma Nova Realidade Árabe. Afinal, as ruas árabes – embora reprimidas em seus próprios países – pulsam com protestos que expressam uma ira feroz contra o  indiscriminado massacre israelense contra os palestinos da Faixa de Gaza.

As lideranças árabes foram forçadas a tomar algum tipo de medida além de retirar alguns de seus embaixadores junto a Israel, e convocaram uma cúpula especial da Organização de Cooperação Islâmica  (OCI) para discutir a presente Guerra Israelense contra as Crianças Palestinas.

Representantes de 57 estados muçulmanos reuniram-se em Riad em 11 de novembro para desferir um sério e pragmático golpe contra os perpetradores e os facilitadores desse genocídio. Mas, no final das contas, nada foi oferecido, sequer algum consolo.

A declaração final da OCI existirá para todo o sempre como relíquia  no Palácio Dourado da Covardia. Pontos altos do vergonhoso espetáculo retórico:  nos opomos à "autodefesa" de Israel; condenamos o ataque a Gaza; pedimos que não vendam (quem?) armas a Israel; pedimos ao fajutíssimo Tribunal Penal Internacional que "investigue"; reivindicamos uma resolução da ONU condenando Israel.

Para constar, isso foi o melhor que 57 países de maioria muçulmana puderam produzir em resposta a esse genocídio do século XXI.

A História, mesmo quando escrita pelos vencedores, tende a não perdoar os covardes.

Os Quatro Maiores Covardes, neste caso, são a Arábia Saudita,  a UEA, Barein e Marrocos – os últimos três tendo normalizado suas relações com Israel sob forte pressão dos Estados Unidos em 2020. Foram eles que consistentemente bloquearam qualquer medida séria, impedindo sua adoção pela cúpula da OCI, como por exemplo a proposta de resolução apresentada pela Argélia de proibição da venda de petróleo a Israel, e também do uso do espaço aéreo árabe para a entrega de armas ao estado ocupador.

O Egito e a Jordânia – há muito vassalos árabes – também não quiseram se comprometer, bem como o Sudão, que atravessa uma guerra civil. A Turquia, sob o Sultão Recep Tayyip Erdogan, mais uma vez deixou claro que fala muito e não faz nada, em uma paródia neo-otomana do "só chapéu, gado nenhum" texano.

BRICS ou CIOM?

Os Quatro Grandes Covardes merecem um exame minucioso. O Barein é um vassalo subalterno que abriga um ramal importante do Império das Bases dos Estados Unidos. Marrocos tem ligações estreitas com Tel Aviv – e se vendeu rapidamente depois de Israel ter prometido reconhecer a reivindicação de Rabat sobre o Saara Ocidental. Além do mais, o Marrocos depende muito do turismo, principalmente o proveniente do Ocidente Coletivo.

Temos então os dois cachorros grandes, Arábia Saudita e UEA. Ambos estão abarrotados de armamentos americanos e, tal como o Barein, também abrigam bases militares dos Estados Unidos. O Príncipe Herdeiro saudita Mohammad bin Salman (MbS) e seu velho mentor, o governante dos Emirados  Mohammad bin Zayed (MbZ), levam em conta a ameaça de revoluções coloridas grassarem por seus régios domínios caso eles se desviem demais do script imperial aceito.

Mas daqui a poucas semanas, a começar em 1º de janeiro de 2024, sob a presidência russa, tanto Riad quanto Abu Dhabi irão expandir em muito seus horizontes, tornando-se oficialmente membros dos BRICS 11.

A Arábia Saudita e a UEA só foram admitidas no BRICS expandido após cuidadosos cálculos geopolíticos e geoeconômicos pela parceria estratégica Rússia-China.

Da mesma forma que o Irã – que por acaso tem sua própria parceria estratégica tanto com a Rússia como com a China – espera-se que Riad e  Abu Dhabi reforcem o peso dos BRICS na área energética e venham, mais adiante, a ser atores importantes no impulso à desdolarização cujo objetivo último é superar o petrodólar.

Mas, ao mesmo tempo, Riad e  Abu Dhabi também se beneficiam imensamente do não tão secreto plano de 1963 de construir o canal Ben Gurion, indo do Golfo de Aqaba ao Leste do Mediterrâneo, terminado  – que coincidência!  – muito próximo ao agora devastado Norte de Gaza.

O canal permitiria que Israel se tornasse um importante nó do tráfego de energia,  desbancando o Canal de Suez egípcio, o que se coaduna muito bem com o papel de Israel de nó importante no último capítulo da Guerra dos Corredores Econômicos: o Corredor Índia-Oriente Médio (CIOM).

CIOM é um acrônimo bastante perverso, como também o é toda a lógica por trás desse fantástico corredor, que visa a posicional Israel, o estado violador do direito internacional, como um nó comercial de importância crítica, e até mesmo como um fornecedor de energia situado entre a Europa, parte do mundo árabe e a Índia.

Essa também foi a lógica por trás da farsa encenada pelo Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu na ONU, em setembro, onde ele exibiu a toda a "comunidade internacional" um mapa do "Novo Oriente Médio", no qual a Palestina havia sido totalmente apagada.

Todo o citado acima pressupõe que o CIOM e o Canal   Ben Gurion serão construídos – o que não pode ser dado como certo com base em quaisquer padrões realísticos.

Voltando à votação na OCI, os minions dos Estados Unidos Egito e Jordão – dois países situados nas fronteiras oeste e leste de Israel, respectivamente – foram os que se viram na posição mais desconfortável. O Estado Ocupador queria empurrar aproximadamente 4,5 milhões de palestinos para seus territórios em caráter definitivo. Mas Cairo e Aman, também abarrotados de armas americanas e tão financeiramente falidos quanto possível, jamais sobreviveriam às sanções americanas caso tomem o partido da Palestina de forma por demais inaceitável.

No final das contas, portanto, muitos estados muçulmanos optaram pela humilhação em detrimento da retidão e pensaram em termos muito estreitos e pragmáticos de interesse nacional. A geopolítica é implacável. Trata-se principalmente de recursos naturais e de mercados. Se você não tem um deles, você precisa do outro, e se não tem nenhum, um Hegêmona vai determinar o que é permitido ou não a você.

As ruas árabes e muçulmanas – e também a Maioria Global – podem, e com razão, sentirem-se desanimadas ao ver que seus "líderes" não estão dispostos a transformar o mundo islâmico em um verdadeiro polo de poder em meio à multipolaridade nascente.

Nem poderia ser de outra maneira. Muitos dos principais estados árabes não são entidades soberanas. Eles se veem encurralados, vítimas de uma mentalidade vassala. Eles não estão prontos – ainda – para enfrentar a História cara-a-cara. E, desafortunadamente, permanecem reféns de seus próprio "século de humilhações".

O humilhante golpe de misericórdia foi dado por ninguém menos que o maníaco genocida de Tel Aviv em pessoa: ele ameaçou a todos no mundo árabe caso não ficassem de boca fechada  - o que eles já fizeram.

É claro que há importantíssimos corações valentes árabes e muçulmanos no Irã, Síria, Palestina, Iraque, Líbano e Iêmen. Embora de modo algum majoritários, esses atores da Resistência refletem, mais que quaisquer outros, o sentimento das ruas. E com a guerra movida por Israel se expandindo a cada dia que passa, seu poder de influência regional e global tende a aumentar imensuravelmente,  tal como ocorreu em todas as guerras regionais do Hegêmona.

Estrangulando um novo século no berço

O catastrófico debacle  do Projeto Ucrânia e o ressurgimento da intratável guerra no Oeste Asiático são profundamente interligados.

Para além do nevoeiro da "preocupação" de Washington com a fúria genocida de Tel Aviv, o fato crucial é que estamos bem no cerne de uma guerra contra o BRICS 11.

O Império não usa estratégia, na melhor das hipóteses ele improvisa planos táticos. Há duas táticas atualmente sendo empregadas:  uma Armada dos Estados Unidos posicionada nos Leste do Mediterrâneo – em uma tentativa fracassada de intimidar os titãs do Eixo das Resistência, Irã e Hezbollah – e uma possível eleição de Milei na Argentina ligada à sua promessa explícita  de cortar relações com o Brasil.

Esse, portanto, é um ataque aos BRICS 11 em duas frentes simultâneas: Oeste Asiático e América Latina. Os Estados Unidos não pouparão esforços para evitar que os BRICS 11 se aproximem da OPEC+. Um dos principais objetivos é instilar medo em Riad e Abu Dhabi – tal como confirmado por fontes empresariais do Golfo Pérsico.

Mesmo os líderes vassalos que participaram do triste espetáculo da OCI sabem que estamos agora imersos no O Império Contra-ataca. Isso, em grande parte, explica sua covardia.

Eles sabem que, para o Hegêmona, multipolaridade é igual a "caos" e unipolaridade é igual a "ordem", e que atores malignos significa "autocratas" – como os do novo "Eixo do Mal" Russo-Chinês-Iraniano, e qualquer um, especialmente entre os vassalos, que se oponha à "ordem internacional baseada em regras".

O que nos leva ao Conto de Dois Cessar-Fogos. Dezenas de milhões em toda a Maioria Global se perguntam por que o Hegêmona estaria tão desesperado por um cessar-fogo na Ucrânia, enquanto rejeita terminantemente um cessar-fogo na Palestina. Congelar o Projeto Ucrânia preserva o Fantasma da Hegemonia por um pouquinho mais de tempo. Suponhamos que Moscou morda a isca (o que não vai acontecer). Mas para congelar a Ucrânia na Europa, o Hegêmona precisará de uma vitória em Gaza – talvez a qualquer custo – para manter nem que seja um vestígio de sua  glória passada.

Mas seria Israel, mais do que a Ucrânia, capaz de alcançar essa vitória? Tel Aviv talvez já tenha perdido a guerra em 7 de outubro, já que nunca poderá recuperar sua fachada de invencibilidade. E se essa guerra se ampliar para uma guerra regional, e que Israel venha a perder, os Estados Unidos, do dia para noite, perderão seus vassalos árabes, que hoje têm uma opção russo-chinesa esperando nos bastidores.

O Rugir das Ruas está aumentando – e exigindo que o governo Biden, hoje visto como cúmplice de Tel Aviv, ponha fim ao genocídio israelense que poderá levar a uma Guerra Mundial. Mas Washington não cederá. Guerras na Europa e no Oeste Asiático talvez sejam sua última chance (fadada ao fracasso) de subverter o surgimento de um Século Eurasiano, próspero, conectado e pacífico.

Tradução de Patricia Zimbres

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Artigo publicado no Brasil 247

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