Dona Joyce. Por Jorge Papapá
Naquele tempo, eu era apenas um menino, desses que ainda confundem admiração com destino e descobrem o amor antes mesmo de saber dar-lhe um nome. Enquanto os outros corriam atrás de bolas de meia e inventavam aventuras pelas ruas, eu esperava, em silêncio, o instante em que Dona Joyce apareceria.
Ela cantava em bailes, cantava no rádio, cantava em botequins. O seu sorriso largo parecia não conhecer descanso, como se a alegria tivesse escolhido morar para sempre em seu rosto. Já era uma mulher madura, trazendo nos cabelos prateados o brilho das luas que eu ainda não havia vivido. Entre nós estendia-se todo o tempo da vida, mas o coração dos meninos desconhece calendários.
Meu encantamento não pedia explicações. Bastava vê-la chegar para que o mundo diminuísse de tamanho. Sua voz parecia conversar diretamente com a parte mais escondida de mim, e eu acreditava, com a ingenuidade que só a infância conhece, que certas canções eram cantadas apenas porque eu estava ali, escutando.
Quando ela passava perto de mim, eu me embriagava com o perfume que deixava no ar. Não era a embriaguez do vinho, mas aquela vertigem doce que só a inocência é capaz de sentir. Meu desejo era imenso, embora eu ainda não soubesse chamá-lo de desejo. Era, antes de tudo, uma fome de amar, uma necessidade silenciosa de permanecer para sempre naquele instante em que sua presença iluminava o mundo.
Não era um amor que desejava possuir; era um amor que apenas contemplava, como quem olha uma estrela sabendo que jamais será capaz de alcançá-la e, ainda assim, agradece por ela existir. Talvez tenha sido ela, sem jamais saber, quem me ensinou que a beleza mora mais na presença do que na proximidade, mais na lembrança do que no toque.
Um dia escrevi uma canção para Dona Joyce cantar. Escrevi com o coração de um menino, acreditando que as palavras também podiam abraçar quem a coragem não alcançava. Mas o tempo, esse velho colecionador de distâncias, passou depressa. Os anos se sucederam, as estações mudaram de nome, e nunca encontrei o momento de lhe mostrar a canção.
Hoje, quando a memória abre suas janelas, ainda a vejo sentada num largo sofá. O rosto traz as marcas delicadas do tempo; os cabelos prateados guardam o mesmo brilho das antigas luas; o corpo continua belo, agora envolto pela serenidade que só os anos sabem oferecer. E o sorriso… o sorriso permanece o mesmo, largo, generoso, como se nunca tivesse deixado de cantar.
Talvez Dona Joyce nunca tenha sabido que foi o primeiro poema que meus olhos aprenderam a ler antes que minhas mãos soubessem escrevê-lo. Talvez nunca saiba que existiu uma canção feita para sua voz, mas que permaneceu guardada no silêncio.
Há amores que vivem do encontro. Outros sobrevivem da lembrança. O meu nunca precisou de resposta. Bastou existir para transformar um menino e permanecer, para sempre, cantando dentro dele.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

