Aldeia Nagô
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Os acordes de minha memória. Por Jorge Papapá

6 - 8 minutos de leituraModo Leitura

A adolescência é um país que nunca desaparece. Podemos passar cinquenta, sessenta anos longe dele, mas basta uma lembrança, uma música ou o cheiro de uma rua antiga para que suas portas se abram novamente. E, quando isso acontece, voltamos a ser aqueles meninos que acreditavam que o futuro cabia inteiro dentro de um sonho.

A minha adolescência foi assim: luminosa.

É curioso como a memória guarda com precisão aquilo que realmente importa. Não me lembro de todas as datas, nem de todas as provas da escola, mas lembro perfeitamente dos rostos, das risadas e da cumplicidade de um pequeno grupo de amigos que parecia inseparável.

Éramos eu, Roberto, Luis e Nilson. Havia também o Cosme, que fazia parte da turma, embora nem sempre estivesse presente em todos os encontros. Cada um carregava um universo particular, mas, quando nos reuníamos, esses universos se encontravam como rios desaguando no mesmo mar.

Todos estudavam no Colégio Duque de Caxias, na Liberdade, em Salvador. Eu era a exceção. Estudava no Colégio Pinto de Carvalho, no bairro de São Caetano. A distância entre as escolas jamais foi suficiente para nos afastar. A amizade encontrava seus próprios caminhos, muito mais fortes do que qualquer rua ou bairro.

Quase todos os dias nos reuníamos na minha casa, na Rua Alvarenga Peixoto, na Ladeira de São Cristóvão. Hoje percebo que aquela casa era muito mais do que uma construção de paredes simples. Era um porto. Um lugar onde atracavam sonhos, esperanças e a inocência de quem ainda acreditava que o mundo seria sempre generoso.

Ali a música era a nossa religião.

Eu era o único devoto da música brasileira. Passava horas ouvindo Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Odair José e tantos outros. Cada canção parecia contar uma história que eu ainda não tinha vivido, mas que já morava dentro de mim.

Os meus amigos, porém, atravessavam oceanos sem sair da sala. Eram apaixonados pelo rock internacional. Pink Floyd, The Rolling Stones, Led Zeppelin, Queen… e Freddie Mercury reinava absoluto em nossas conversas, como se fosse um deus capaz de transformar qualquer palco em eternidade.

Nossos gostos eram diferentes, mas isso nunca nos separou.

Pelo contrário.

Descobrimos muito cedo que a amizade não exige opiniões iguais. Ela apenas precisa de respeito, de afeto e da disposição de compartilhar o mesmo silêncio enquanto uma música toca.

Sonhávamos acordados.

Fechávamos os olhos imaginando que um dia também subiríamos aos palcos. Sonhávamos em tocar para multidões, em sentir os aplausos, em viver daquilo que fazia nossos corações baterem mais forte.

Foi naquela época que comecei a dar meus primeiros passos no violão.

Roberto já conhecia alguns acordes e, com uma paciência que só os verdadeiros amigos possuem, foi me ensinando. Cada nota aprendida era uma pequena conquista. Cada acorde parecia abrir uma nova janela para o mundo.

Talvez ele nem imaginasse, mas estava ajudando a construir uma parte importante da minha vida.

Enquanto alguns sonhavam com a música, Nilson vivia outro tipo de melodia.

Seu coração tinha um nome.

Chamava-se Jocimar.

Era uma colega do Colégio Duque de Caxias por quem ele era completamente apaixonado. Mas Nilson era extremamente tímido. Amava em silêncio. Nunca encontrou coragem para se aproximar dela, nem para dizer uma única palavra que revelasse o que sentia. Ainda assim, aquele amor era tão evidente que acabou se tornando conhecido por todo o colégio. Todos sabiam que Nilson era apaixonado por Jocimar. E, em algum momento, ela também passou a saber.

Nós acompanhávamos aquele amor impossível quase diariamente. Bastava colocar uma música mais romântica para que seus olhos se enchessem de lágrimas. As canções pareciam dizer aquilo que ele jamais conseguia confessar.

E nós, seus amigos, éramos cúmplices daquele sentimento.

Torcíamos por ele como quem torce pelo final feliz de um filme.

Mas a vida, às vezes, escreve suas histórias de um jeito curioso.

No fim daquele ano, Nilson conheceu Dená.

Ela era impressionantemente parecida com Jocimar, como se a vida lhe oferecesse uma segunda oportunidade para viver o amor que nunca teve coragem de declarar. Os dois se apaixonaram, casaram-se e tiveram três filhos. Foi como assistir à realização de um sonho que, de certa forma, começou ainda nos corredores do colégio.

Vieram os filhos, vieram as responsabilidades, vieram também as dificuldades que ninguém imagina quando ainda acredita que o amor, sozinho, é capaz de vencer todas as tempestades.

A vida, porém, nem sempre respeita os roteiros que escrevemos.

Depois de muitas lutas, acabaram se separando.

A última vez que encontrei Nilson foi dolorosa.

Já não era aquele rapaz cheio de esperança que sonhava embalado pelas músicas da juventude. Encontrei um homem cansado, de saúde frágil, mergulhado na bebida e carregando nos olhos uma tristeza impossível de esconder.

Depois daquele encontro, nunca mais tive notícias dele.

Às vezes me pergunto onde foi parar aquele menino apaixonado que transformou um amor impossível em esperança e que um dia acreditou que a felicidade poderia durar para sempre.

Talvez ainda exista, escondido em algum lugar onde a memória consegue alcançar.

A história de Cosme também foi triste.

Ainda adolescentes começamos a perceber mudanças em seu comportamento.

No início pareciam apenas excentricidades.

Depois vieram os gestos desconexos, os olhares perdidos, as conversas sem sentido.

Pouco a pouco, foi desaparecendo diante dos nossos olhos.

Não de uma vez.

Foi como uma fotografia antiga que vai perdendo lentamente suas cores até quase desaparecer.

Abandonou tudo.

Foi morar nas ruas.

Andava pela cidade como um náufrago caminhando em terra firme. Sujo, maltratado, distante da realidade, carregando um sofrimento que ninguém soube compreender nem aliviar.

Durante mais de trinta anos, Salvador o viu vagar por suas ruas.

Hoje nem sei como terminou sua história.

Há destinos que desaparecem como pegadas na areia depois da maré cheia.

Luis…

Talvez seja o nome que mais doa escrever.

Era um rapaz admirável.

Sereno.

Generoso.

Gostava de Rita. Os dois se apaixonaram ainda no colégio. Rita engravidou, eles se casaram e formavam um casal bonito, desses que pareciam ter sido desenhados para envelhecer juntos.

A felicidade parecia finalmente sorrir para eles.

Mas a vida, às vezes, escreve capítulos que nenhum coração consegue aceitar.

Antes mesmo de o filho nascer, Roberto apareceu em minha casa trazendo uma notícia que parecia impossível.

Luis havia morrido afogado.

Lembro do silêncio.

Há notícias que não fazem barulho.

Elas apenas atravessam o peito como uma lâmina invisível.

Naquele dia compreendi, pela primeira vez, que a juventude não era sinônimo de eternidade.

Algumas pessoas partem cedo demais.

E deixam para trás um vazio que nenhuma explicação consegue preencher.

O tempo continuou caminhando.

Os cabelos embranqueceram.

As ruas mudaram.

As casas envelheceram.

Muitos dos lugares onde sonhamos talvez nem existam mais.

Mas as lembranças permanecem intactas, como discos de vinil cuidadosamente guardados, esperando apenas que alguém coloque novamente a agulha sobre eles.

Cinquenta anos se passaram.

Recentemente voltei a Salvador.

Entre tantos reencontros com a cidade, havia um que precisava acontecer.

Fui visitar Roberto.

Hoje somos apenas nós dois.

Os últimos remanescentes daquela pequena constelação de amigos que acreditava que a música podia mudar o mundo.

Quando nos abraçamos, não eram apenas dois homens de cabelos grisalhos.

Eram também aqueles garotos que passavam tardes inteiras ouvindo discos, aprendendo acordes, rindo de qualquer bobagem e imaginando um futuro que parecia infinito.

Conversamos durante horas.

Relembramos cada nome, cada rua, cada música, cada sonho.

Rimos.

Silenciamos.

Também nos emocionamos.

Percebemos que a vida foi generosa em alguns momentos e profundamente cruel em outros. Levou amigos, espalhou destinos, desfez encontros, mas não conseguiu apagar aquilo que construímos juntos.

Antes de nos despedirmos, fizemos uma promessa simples.

Continuar vivendo.

Cuidar da saúde.

Valorizar o tempo que ainda temos.

E alimentar a esperança de nos encontrarmos outra vez.

Enquanto voltava para casa, compreendi uma verdade que talvez só o tempo seja capaz de ensinar.

A juventude não termina quando envelhecemos.

Ela termina apenas quando esquecemos quem fomos.

E eu não quero esquecer.

Porque, em algum lugar entre a Rua Alvarenga Peixoto, a Ladeira de São Cristóvão, os acordes de um violão desafinado, as canções de Chico Buarque misturadas ao rock do Pink Floyd, o amor silencioso de Nilson por Jocimar, a vida que construiu ao lado de Dená, o sorriso tranquilo de Luis e Rita, o olhar perdido de Cosme e a amizade silenciosa de Roberto, continuam vivendo cinco meninos.

Meninos que acreditavam que o mundo era uma canção interminável.

Talvez fosse.

Ou talvez a música nunca tenha parado de tocar.

Somos nós que, às vezes, deixamos de escutá-la.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

Roberto Rosário e Jorge Papapá
Roberto Rosário e Jorge Papapá

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