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A resposta está na unidade da esquerda e na construção de um programa de mudanças. Por José Dirceu
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Comportamento
Qui, 15 de Outubro de 2020 06:56

Jose_DirceuMeu último artigo “A esquerda precisa fazer uma releitura do Brasil” foi objetivo de várias manifestações de leitores, de apoio. Recebi muitas mensagens via WhatsApp me perguntando: e daí? Quais são as saídas e propostas?

Vou tentar refletir aqui sobre as possíveis alternativas existentes para a esquerda. Como pelas eleições municipais. Entre os analistas políticos, é voz corrente afirmar que a esquerda está dividida, o que é verdade em termos. Mas esta afirmação vale também para a direita, que, se observarmos, mesmo liderando as pesquisas eleitorais, aparece dividida nas principais capitais do país como Rio e São Paulo. Em São Paulo, disputam a liderança Russomanno e Covas; no Rio, Crivella e Paes. Isso sem mencionar os candidatos apoiados por Bolsonaro em várias capitais e cidades com previsíveis dois turnos.

Na prática, não há lideranças novas nos dois lados que disputam as eleições como nos mostram as pesquisas relativas ao Rio, São Paulo e outras cidades.  Há exceções, como Salvador e Fortaleza, mas elas são raras. Isso significa que o novo ainda não nasceu. As exceções, as jovens lideranças, convivem com o velho sistema partidário que sobrevive: a direita liberal e a ultra direita, agora reforçada pelo Centrão, e a esquerda tradicional, com alguns sinais de renovação no PSOL, PT e PSB.

PSDB-DEM-MDB procuram se consolidar como polo centrista liberal para 2022. PDT-PSB idem sob a liderança de Ciro Gomes que, em sua trajetória, migrou da centro- direita para a centro-esquerda. No fundo os projetos têm raízes históricas e reproduzem duas alternativas: a ultraliberal, que pretende se livrar do autoritarismo, obscurantismo e fundamentalismo representado por Bolsonaro e sua aliança com os militares e religiosos atrelados ao domínio do Estados Unidos; e a da esquerda nacional desenvolvimentista e suas vertentes trabalhista, social-democrata e socialista.

Nada de novo aqui nos trópicos, à exceção das novas e importantes agendas ambiental e de gênero, raça e sexo. A questão nacional, democrática e social continua no horizonte da nação e a desigualdade brutal e imoral é assimilada como normal por uma elite decadente e sem identidade nacional.

No fundo, tanto na centro-direita como na centro- esquerda os projetos são históricos e têm antecedentes na questão nacional e democrática, na questão social (marcada pela enorme concentração do poder, renda, riqueza, propriedade) e na luta dos trabalhadores, das classes populares para ter o direito a uma vida digna e em liberdade, à educação, ao bem estar social, a decidir pelo voto os destinos do Brasil. Direito este que, de tempos em tempos, foi usurpado pelas classes dominantes quando seus privilégios são ameaçados e seu domínio de classe questionado pela luta incansável pela distribuição da renda e da riqueza criada por elas.

Se observarmos como nossas elites exercem o poder e apelam para as armas ao longo da história, quando seus privilégios estão em risco, entenderemos que não há saída sem a unidade das forças de esquerda e sem a construção de uma força popular organizada para apoiar as reformas estruturais que o país reclama para retomar o caminho histórico de seu desenvolvimento nacional.

Basta vermos como a direita tem acordo natural e básico sobre as reformas ultraliberais para constatar que é urgente que nós, da esquerda, temos que construir um acordo sobre as reformas política, social e nacional reclamadas pelo atual momento histórico. Assim, nossas tarefas principais são a unidade e a construção de um programa de mudanças; e a organização de uma força popular para sustentar nosso governo. Toda experiência histórica — inclusive a recente, com os quatro governos do PT — indica que, sem unidade e alianças, não governaremos e estaremos sempre na oposição ou em governos limitados pela força da elites. Força esta amplificada via os aparatos do Estado que as elites não vacilam em colocar a seu serviço, como no recente golpe contra o governo Dilma.

Mas o Brasil de hoje não é o do início da década de 2000. Exige das esquerdas novas formas de luta e de organização tanto em decorrência de nossa ausência nos bairros e territórios como de nossa débil atuação nas redes sociais como demanda gerada pelas novas agendas — as novas formas de organização do mundo do trabalho, as exigências da revolução tecnológica, as mudanças do cenário internacional com a ascensão da extrema direita. Sendo o Brasil, nesse caso, uma potência média com vocação regional e base industrial e científica para ser soberano e autônomo, no nosso horizonte sempre estarão colocados a questão nacional e o poder militar.

A principal tarefa das esquerdas é dar resposta ao novo mundo do trabalho, onde ganham espaço os trabalhadores autônomos e precarizados, e às mudanças culturais e de classe ocorridas na última década. As batalhas são de médio e longo prazo e exigem uma política de acumulação de forças. As frentes são muitas: a política onde se disputa governos e Parlamento; as sociais, onde há que se reconstruir o movimento sindical e popular partindo da experiência da décadas de 1970 e 1980, mas levando-se a nova realidade. É imperativa a volta aos bairros para a disputa politico-cultural com a direita e as igrejas neopentecostais. Esta é pré-condição para se sair da defensiva e retomar bases sociais e eleitorais.

Os sindicatos têm que atuar para além do trabalho formal e alcançar os desempregados, informais e pequenos negócios, ir aos bairros também e se autofinanciar. Sem isso, não haverá movimento organizado e nem autonomia. A mesma lógica vale também para os partidos políticos de esquerda, hoje prisioneiros dos fundos eleitoral e partidário e correndo o risco de ficarem sem saída  se os fundos forem extintos, como aconteceu com o imposto sindical.

Lutas democráticas, ambientais, culturais, em defesa da pluralidade, da diversidade, dos direitos da mulher, dos negros e negras, dos jovens, dos idosos que crescerão e muito nos próximos anos com o fim do nosso bônus demográfico.

As mudanças tecnológicas e culturais já desenharam uma nova composição das classes trabalhadoras e novos meios de comunicação, organização e luta. Frente a este cenário,  o atraso e o amadorismo das esquerdas devem ser superados e já, sob pena da morte dos atuais partidos e lideranças, sindicatos e organizações populares. A maré das mudanças não respeita lideranças, feudos e territórios como a recente experiência de luta nas ruas e nas urnas nos provou e nos custou grandes derrotas.

Se é verdade que se conforma uma nova aliança para estabilizar o governo Bolsonaro e avançar nas contra-reformas ultra liberais, também é fato que haverá luta social dada a natureza ultra concentradora da renda e riqueza decorrente da tardia imposição desse modelo num mundo onde potências regionais e as grandes se preparam para uma nova divisão neocolonial sob a égide do capital financeiro e da ascensão chinesa, russa, indiana, turco e iraniana.

Com tenho dito, a questão que nos atormenta e ameaça é se os atuais núcleos dirigentes e  lideranças das esquerdas estarão à altura do desafio de se autorreformar. Ou serão varridos da história por novas lideranças e organizações partidárias.

José Dirceu de Oliveira e Silva, 74 anos, é advogado. Foi deputado estadual e federal pelo PT e ministro da Casa Civil (governo Lula). Foi condenado em 1ª Instância na Lava Jato a 32 anos e 1 mês de prisão. Aguarda em Brasília a decisão do TRF-4, tribunal de 2ª Instância da Justiça Federal, sobre condenações já proferidas pelo juiz Sérgio Moro na 1ª Instância.

 

 

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