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Nem o diabo de um pato eu pude ter. Por Josane Silva Souza
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Qui, 14 de Março de 2019 18:57

Josane_Silva_SouzaHá exatos 6 anos, em 2013, eu me formei em Letras com habilitação em Espanhol pela UNEB. Hoje eu sou especialista e mestra pela UFBA, professora da UESC e matriculada no curso de doutorado, também na UESC.  Mais importante que 14 de março de 2013, dia que me formei e tive a presença de minha mãe, irmã e sobrinho no auditório me assistindo ter a confirmação de uma profissão, foi o dia 8 de julho de 2008, data em que comecei a graduação. Foi o momento da minha vida, minha primeira oportunidade real. Depois dessa oportunidade eu pude ser gente, ter dignidade e sonhar com um projeto de vida, que me permitisse ter casa própria, falar outra língua e viajar para mais de 7 países (e saber que posso viajar por muitos mais). 
Essa história considerada de sucesso, por mim e pelas pessoas que convivem comigo, tem uma infância de misérias, de falta de tudo: comida, água, educação, segurança e saúde. Eu, aos 5/6 anos de idade, andava 14 km para ir e voltar da escola, no sol escaldante do sertão. E naquela época ainda existia o curso de Magistério e as escolas recebiam os estagiários. Cada sala tinha dois estagiários e no final do seu período de trabalho, eles faziam uma festinha de encerramento, com muita comida: bolo, refrigerante, salgados e lembrancinha. Então para nós, alunos pobres, aquele momento era único, pois tínhamos a oportunidade de comer e ganhar coisas que eram impensadas para nossa realidade de miséria.

E naquele dia aconteceu uma das coisas mais tristes que pode acontecer na vida de uma criança cheia de expectativas: eu não pude ir à festinha. O motivo? Eu não tinha roupa. Era comum no dia da festinha as crianças irem com roupa arrumada e não com a farda. E eu não tinha a roupinha, portanto não pude ir. Mas eu tinha certeza que pelo menos uma lembrancinha eu ganharia no outro dia, que era um pato de gesso rosa para as meninas e azul para os meninos, que os estagiários faziam sob encomenda com o número contado de estudantes. Só que uma coleguinha desastrada deixou o patinho dela cair e quebrou. A solução? Pegaram o meu patinho e deram pra ela. Quando eu cheguei no outro dia não tinha mais lembrancinha pra mim. Fui uma criança mais infeliz a partir daquele dia, pois nem o diabo de um pato eu pude ter. Essa história de infância, apesar de minha, foi a de milhões de crianças no Brasil. E a história minha de hoje é a de milhões de jovens também, que estão na universidade estudando, tendo uma profissão e podendo comprar vários "patos" rosas, azuis, coloridos, pequenos ou grandes.

E só podem ter isso por conta de várias políticas públicas. E política pública é condição essencial para que pessoas que não tem nada possam ser gente.

Que nossas profissões sirvam para dar dignidade, poesia e patinhos a mais gente.

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