Aldeia Nagô
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Achismo. Por Jorge Papapá

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Durante muito tempo pensei possuir um dom secreto:
o de enxergar o que ninguém enxergava.
Eu observava os silêncios das pessoas como quem traduz sinais do céu.
Um olhar mais demorado, uma pausa na fala, um cumprimento sem entusiasmo e pronto: dentro de mim nascia uma história inteira.
Eu chamava aquilo de sensibilidade.
Hoje desconfio que era medo.
O achismo é assim:
um poeta sombrio que escreve mentiras com a tinta das nossas inseguranças.
Ele não precisa de provas.
Basta um vento torto na janela da alma e já começamos a imaginar tempestades.
Uma vez perdi um amigo sem que houvesse briga.
Perdi apenas acreditando.
Contei a ele um segredo desses que a gente entrega baixinho, como quem solta um pássaro ferido nas mãos de alguém.
Dias depois ouvi fragmentos daquela confidência espalhados numa conversa distante.
Não perguntei nada.
Apenas senti o coração endurecer devagar.
Passei a evitá-lo.
Ele percebeu.
Tentou ainda alguns gestos de aproximação, mas eu já havia condenado sua inocência no tribunal silencioso da minha cabeça.
Meses mais tarde descobri a verdade: meu amigo jamais havia dito palavra alguma.
E naquele instante compreendi uma coisa terrível:
existem erros que não fazem barulho, mas apodrecem afetos por dentro como chuva infiltrada nas paredes de uma casa.
Também já culpei um professor por uma nota baixa.
Voltei para casa inflamado de revolta, convencido de que havia desprezo naquele resultado.
Demorei muito para perceber que era apenas minha vaidade procurando um culpado para a própria falta de preparo.
O orgulho, às vezes, é só uma criança ferida usando roupas de juiz.
Mas o episódio que mais me atravessa é o do vizinho da rua de cima.
Homem simples.
Daqueles que conversam com cães, varrem a calçada antes do sol nascer e parecem conhecer intimamente o ritmo das árvores.
Durante semanas ele evitou meu olhar.
Passava por mim em silêncio, como se eu tivesse deixado de existir.
E eu, vaidoso em minhas suposições, comecei a construir explicações:
“Fiz algo errado.”
“Falaram mal de mim.”
“Ele guarda algum ressentimento.”
Sem perceber, transformei a dor desconhecida de um homem numa ofensa pessoal.
Até que um dia encontrei sua irmã na feira.
Ela me contou, com voz cansada, que desde a morte da mãe ele atravessava os dias como quem caminha submerso.
Não evitava a mim.
Evitava o mundo.
Evitava a própria existência.
Naquele instante senti vergonha da facilidade com que fazemos do nosso umbigo o centro de todos os mistérios.
O achismo nasce muito disso: da incapacidade de aceitar que a vida dos outros continua acontecendo mesmo quando não gira ao nosso redor.
Há pessoas travando batalhas silenciosas enquanto interpretamos seu silêncio como desamor.
Há dores sem linguagem, cansaços sem explicação, tristezas que apenas abaixam os olhos e passam.
Hoje tento desconfiar das certezas rápidas.
As verdades profundas raramente chegam correndo.
Quase sempre vêm devagar, sentam ao nosso lado, e esperam que o coração se acalme.
Porque pensar não é saber.
Suspeitar não é compreender.
E imaginar demais pode ser uma maneira triste de se afastar da realidade.
A vida já perdeu amizades demais, amores demais, gente demais, por culpa de histórias inventadas dentro da cabeça da gente.

Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

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