Colibri encerra a trilogia iniciada durante a pandemia com o lançamento de “3R pt. III”
A banda baiana apresenta álbum transformado pela improvisação, pesquisa sonora e experimentação em uma experiência entre o rock progressivo, o dream pop e o shoegaze
A banda Colibri apresenta, no dia 9 de junho, “3R pt. III“, trabalho que conclui uma trilogia iniciada em 2020 e que sintetiza uma das fases mais experimentais do grupo. Entre paisagens sonoras que transitam pelo rock progressivo, dream pop e shoegaze, o disco transforma incertezas, deslocamentos e questionamentos existenciais em uma experiência musical marcada pela liberdade criativa e pela busca constante por novos caminhos.
A origem do projeto remonta a setembro de 2020, quando os integrantes decidiram se isolar em Cachoeira do Itanhy, na divisa entre Bahia e Sergipe, em meio às restrições impostas pela pandemia. Instalados em uma casa escolhida especialmente pela acústica natural de seu amplo teto de madeira, levaram equipamentos de gravação e transformaram o espaço em um laboratório criativo. O ambiente, aliado ao contexto de medo e incerteza daquele período, acabou moldando a identidade da trilogia.
O título que dá nome a trilogia, “3R”, surge da junção entre as iniciais “RRR”, vindas do lugar que gravaram o disco na Cachoeira do Itanhy e também como referência a cafeteria “Double R”, ícone da série Twin Peaks, de David Lynch. Os três capítulos em formato de disco (“3R” pt. I, “3R” pt. II e, agora, “3R” pt. III) funcionam como partes de uma mesma investigação artística, construída a partir de processos de criação intuitivos, improvisação e experimentação sonora. “3R pt. III” surge como o desfecho desse percurso, reunindo elementos que atravessam toda a obra e ampliando as possibilidades exploradas anteriormente.
O material produzido refletia diretamente aquele momento da história. “O que produzimos trazia o sentimento de medo e incerteza que permeava aquele período – a resposta do grupo à isso foi a experimentação indomada, a pulsante materialidade de sessões de improviso instrumental e uma lírica que transpassa a frieza encarando de frente sentimentos duros, inadequados e obtusos. Criar mundos possíveis a partir da abstração total e construir vias possíveis para uma experiência onírica que desloque nossas perspectivas frente aos mistérios da vida, se tornaram características do processo criativo da banda“, relembra Zé Neto.
Essa abordagem também se manifesta na própria estrutura das composições. Em um momento em que a lógica do consumo acelerado costuma privilegiar músicas cada vez mais curtas, “3R pt. III” apresenta faixas que ultrapassam dez minutos de duração. Canções como “The Roadhouse” nasceram de extensas jam sessions, uma delas chegou a ter 36 minutos antes de ser editada e reorganizada em 3 diferentes partes que se espalham 1 em cada parte da trilogia “The Roadhouse”. Para a banda, o tempo das músicas responde às necessidades de cada narrativa.
Outro aspecto marcante do disco é sua multiplicidade de linguagens. As composições transitam entre português, inglês e até trechos em russo. “Vemos potência em nos apropriar de territórios simbólicos (idioma, gênero musical, cultura) de entes hegemônicos como forma de subvertê-los ao favor da expressão máxima da liberdade: o fazer artístico. A Colibri carrega essa essência de se jogar no mundo e ao mesmo tempo ser anfitrião dele. Pensamos em artistas como antenas, captando no ar estímulos de um mundo além. Tudo nos pertence“, afirma Zé Neto.
As referências literárias, cinematográficas e de videogames também ocupam papel importante na construção do álbum. A faixa “Nada Melhor que Você no Ar” dialoga diretamente com a atmosfera enigmática do filme “Veludo Azul”, de David Lynch, evocando o mistério e a sensação permanente de que algo permanece oculto ao espectador. Já a canção de encerramento, “After the Kingfisher ‘s Wing”, incorpora um trecho de “Burnt Norton”, poema de T.S. Eliot presente na coletânea “Quatro Quartetos”. Além de, um aceno para as transmissões de rádio que ocorrem no jogo “Fallout” na faixa “Cidade Infame”, no jogo o personagem, que está em um contexto pós-apocalíptico nuclear ainda tem acesso a escassas transmissões de rádio amador.
Produzido de forma intuitiva e guiado pela pesquisa constante, “3R pt. III” reflete o interesse de Colibri por técnicas de gravação pouco convencionais, ambientes acústicos não tratados e pela troca entre diferentes repertórios musicais. A diversidade de referências dos integrantes alimenta um processo colaborativo em que a curiosidade e a busca pelo novo ocupam posição central.
“A trilogia foi um processo de evolução de uma identidade, pensando sempre na instrumentação do rock como uma base sólida para expandir em qualquer direção: eletrônica, jazz e música brasileira. Dado que fizéssemos as adições criativas que possibilitassem isso sem receio. A importância de encarar os instrumentos como camadas possíveis, de formar paisagens sonoras para além de fórmulas pré-concebidas e evitar nossos próprios “vícios de linguagem” foram recursos utilizados para dar uma unidade estética e artística para trilogia sem perder a inovação a cada parte“, explica Zé Neto.
Encerrando uma jornada iniciada em um dos períodos mais incertos da história recente, “3R pt. III” reafirma a identidade de Colibri como uma banda interessada em expandir limites sonoros e transformar inquietações em matéria criativa. Como sugere uma das frases que atravessam o universo do disco: “You Already Know The News“*.
“Você Já Sabe As Notícias”, em tradução livre.
Sobre Colibri
Passear pelos mistérios, sentimentos e experiências humanas com uma trilha profunda, repleta de paisagens sonoras e sensibilidade são marcas vivas da música e poesia de Colibri, grupo fundado em 2017 e composto por José Neto (cantor/compositor/multiinstrumentista), Tiago Simões (baixo/samples/synth bass), Paulo Pitta (Saxofone e pifes), l e Rodrigo Santos (sintetizadores / backing vocals). Atualmente, o grupo se localiza em Salvador – BA, com membros ocasionalmente passando temporadas em São Paulo.
O som de Colibri é marcado por uma produção rica em nuances, entrelaçada em um arranjo experimental e progressivo que desenrola uma história e confia em seu sentimentalismo. Referências de Psicodelia, Pós-Punk, Dream Pop e Indie Rock podem ser listadas. Ao mesmo tempo, a banda carrega peculiaridades e também revela suas raízes, levando a alguns fãs usarem o termo “PÓS-INDIE” para descrever o estilo do grupo.
No segundo semestre de 2019, os primeiros lançamentos vieram ao mundo, sendo os singles: “Fria Demais” e “Sossego”, precedentes do disco “Canto de Colibri”, lançado pela Tratore – disco que foi bem recebido pela crítica, sendo nomeado o 59º melhor álbum do ano pela revista “Melhores da Música Brasileira”, e com menções positivas nos portais “El Cabong” e “Tenho Mais Discos Que Amigos”. Numa estética mais folk e intimista, o disco apresenta um lado solar da banda. Por fim, este acumulou 90k de streams até 2023, com “Lererê” sendo a faixa mais ouvida e figurando na playlist “Indie Brasil” do Spotify. Em turnê de lançamento, tocaram em festivais como Feira Noise (Feira de Santana – BA) e Festival ITAIM (São Paulo – SP), além de shows na Bahia até o início do lockdown.
Após um período criando novos trabalhos desde 2021, lançaram os singles “Otherside” e “Quintal”, que contam com os primeiros clipes da banda. Surgiram também parcerias com outros artistas da Bahia, como: Tangolo Mangos na canção “FUJI”, Hiran em “Out of Grasp” e o álbum “Jaqueira”, e Vandal em “Quem Será?” e “VULGARH”. Estes singles, que foram lançados pela Onerpm, movimentaram a cena local e as redes de forma satisfatória. A canção “Quem Será?” foi executada na rádio em 3 países (Brasil, Japão e Estados Unidos), e integrou a playlist “Indie Brasil” bem como outras playlists de algoritmo por +4 meses.
Com o terreno preparado, a banda agora está no período de lançamento de uma coleção de EP ‘s intitulada “3R”, que conta com 2 álbuns de 6 faixas e um de 7. Essa é a obra mais nova da banda, migrando para um som mais moderno, que experimenta com bateria eletrônica e sintetizadores. Percebe-se uma identidade mais contundente, sem perder o caráter mais fantasioso e despretensioso do grupo.
Ficha Técnica
Banda:
José Gomes Neto [Zé] (voz, guitarra, bandolim, teclas e violão)
Rodrigo Oliveira dos Santos (teclas e voz)
Paulo Pitta (saxofone e pifes)
Tiago Andrade Simões (baixo, beats e teclas)
Músicos Convidados:
Levi dos Anjos Vieira (guitarra em”Tvoi Glaza” e “The Roadhouse [pt. III]”)
Gabriel Burgos (bateria em “Cidade Infame” e “Chats”)
Victor Vogel Bartilotti (bateria em “The Roadhouse [pt. III]” e “Tvoi Glaza”)
Paulo Tiano (bateria em “Nada Melhor Que Você No Ar)
