Sonzaço! Coragem e retranca: a semifinal que dançou. Por Renato Queiróz
15 de julho de 2026, 16h no horário de Brasília (15h no fuso local), o Estádio de Atlanta, na Geórgia (EUA), foi o cenário de uma das semifinais mais aguardadas da Copa do Mundo FIFA 2026.
Inglaterra e Argentina mediram forças para um lugar na grande final, mas o que se viu em campo foi um duelo de opostos.
Senta que lá vem História!
Sonho que eu tive, confesso. Brasil e Argentina numa semifinal de Copa do Mundo. O gramado americano seria o palco do encontro que a torcida brasileira tanto esperava: a chance de rever o maior rival, de medir forças, de transformar a rivalidade centenária em espetáculo.
Mas o meu sonho, e de muita gente, morreu há alguns dias, enterrado sob uma atuação apática, sem alma. A Seleção Brasileira ficou pelo caminho…O Brasil foi eliminado nas oitavas de final (!) perdeu de 2 a 1 para a Noruega.
Assim, restou acompanhar o que a Inglaterra faria contra a Argentina, no lugar que poderia ter sido do Brasil. E o que se viu foi uma Argentina que entendeu o recado do futebol, já havia passado por todo tipo de pressão, enquanto a Inglaterra de Tuchel ofereceu o oposto.
É difícil entender o que passou pela cabeça do técnico da seleção inglesa, Mr. Tuchel. A Inglaterra fez o primeiro gol com Anthony Gordon, aos 55 minutos. O momento perfeito para pressionar, ampliar, matar o jogo.
Mas o Mister recuou. Baixou as linhas, encolheu o time e isolou Harry Kane. O fantástico artilheiro passou o resto do jogo sem uma finalização. E para fechar o festival de hesitação, Thomas Tuchel colocou Rashford em campo faltando menos de um minuto. O técnico não comandava mais; apenas assistia ao próprio naufrágio. Quem nunca viu uma dessas? O “tarde demais” que a torcida “já sabia” antes mesmo do apito final.
Do lado argentino, a história foi outra.
O técnico Lionel Scaloni respondeu com um futebol que desnorteava a defesa inglesa. Os argentinos mantiveram a calma, trocaram passes com precisão e foram achando os buracos que a desencatada retranca inglesa ia deixando.
Quanto mais a Inglaterra se encolhia, mais a Argentina se expandia. E quem comandava? Um velho conhecido. O cara que não tremeu quando a Inglaterra fez 1 a 0, que achou o passe que ninguém via. Lionel Messi.
Mesmo com os muito possíveis ou quase possíveis marcadores em cima, Messi encontrou espaços, fez de vielas, avenidas. Duas assistências que valeram a virada: a primeira para Enzo Fernández, aos 85; a segunda para Lautaro Martínez, já aos 92, nos acréscimos. Dois passes certeiros, dois gols.
Se a Argentina dançou em campo, foi como um tango de Piazzolla. Aquele que quebrou as regras, recusou o passo marcado, inventou o próprio ritmo. Para mim “Libertango” é a trilha sonora dessa partida. A música que pulsa com acordes imprevisíveis, acelerações e pausas que lembram as triangulações argentinas.
A retranca inglesa, ao contrário, parecia uma valsa ensaiada, previsível, sem improviso. A antítese do “Libertango”: onde não havia liberdade, não havia movimento, não havia evolução, não havia alma.
No fim, o futebol foi justo. E nem sempre é… A audácia falou mais alto, o medo foi escanteado. Pra quem ama o esporte, a classificação da seleção argentina para a grande final tinha que ser assim: coragem premiada, covardia exposta.
Se alguém duvida que futebol e música contam a mesma história, basta ouvir os acordes de Piazzolla, e assistir aos melhores momentos.
Fica, para o Brasil, o gosto amargo de saber que, enquanto o sonho da semifinal morreu, os hermanos mantiveram vivo o que o futebol tem de mais bonito. A zebra não apareceu. Mas apareceu um time que jogou com a raça que a torcida brasileira queria ver no seu. E isso, meu amigo, é o que mais dói.
No próximo domingo será a grande final Espanha x Argentina, mas aí já é outra história…
Aqui, o gênio, o excepcional bandoneonista argentino Astor Piazzola revisita “Libertango” um clássico de seu repertório, que compôs em 1974.
No programa TSR Mosaïque, de 18 de maio de 1977. Em turnê europeia, Astor Piazzolla é acompanhado pelos músicos Tomás Gubitsch na guitarra, Ricardo Sanz no contrabaixo/guitarra baixo, Gustavo Beytelmann no piano, Luis Ceravolo na bateria, Osvaldo Caló no órgão elétrico, Daniel Piazzolla no sintetizador e Luis Ferreyra na flauta.
SONZAÇO!
Renato Queiroz é professor, compositor, poeta e um apaixonado pela história da música
