Caiçara, filho da mandinga. Por Jorge Papapá
Há homens que nascem. Há homens que acontecem.
Caiçara aconteceu.
Nasceu numa manhã de maio, em Cachoeira, quando o Recôncavo ainda conversava baixinho com os ancestrais e as águas do Paraguaçu carregavam histórias que ninguém escrevia. Veio ao mundo pelas mãos de Dona Adélia, mulher de santo, guardiã dos mistérios que habitam entre o toque do atabaque e o silêncio dos orixás.
Dizem que algumas crianças chegam chorando.
Caiçara talvez tenha chegado gingando.
Porque sua vida nunca andou em linha reta. Fez curvas, rodopios, esquivas e rasteiras. Viveu como quem joga capoeira: um olho no presente, outro no invisível.
O menino cresceu entre rezas, sambas de roda, festas populares e cantigas antigas. Aprendeu cedo que a Bahia não é apenas um lugar. É um encantamento. Uma mistura de suor, fé, tambor, alegria e resistência.
E ele bebeu dessa fonte até a última gota.
Conheceu outras lutas. Experimentou outros caminhos. Mas foi na capoeira que encontrou a língua da sua alma. Quando segurava um berimbau, parecia que conversava com o tempo. Quando cantava uma ladainha, era como se abrisse uma janela para os antigos mestres atravessarem a roda.
Sua voz não saía apenas da garganta.
Saía da memória.
Saía dos terreiros.
Saía dos becos do Pelourinho.
Saía dos navios negreiros que ainda choram dentro da história do Brasil.
Por isso, quando cantava, o povo escutava.
E quando o povo escuta, nasce a lenda.
Caiçara carregava cicatrizes espalhadas pelo corpo. Marcas de navalha, de faca, de bala, de uma vida que nunca conheceu a palavra “medo”. Eram vinte e sete assinaturas deixadas pelo destino.
Mas ele não escondia nenhuma.
Mostrava cada uma como quem exibe capítulos de um livro.
E sorria.
Porque alguns homens contam suas histórias com palavras.
Outros contam com a própria pele.
Era valente.
Valente como os velhos baobás que enfrentam tempestades sem abandonar suas raízes.
Valente como os pescadores que desafiam o mar.
Valente como a própria capoeira, que sobreviveu quando tantos queriam vê-la morrer.
Mas havia também doçura naquele homem.
A mesma mão que endurecia no combate distribuía carinho às crianças abandonadas.
O mesmo peito que enfrentava perigos guardava espaço para passarinhos.
Talvez porque compreendesse que a força verdadeira não nasce da violência.
Nasce do cuidado.
Nasce do amor.
Nasce da capacidade de permanecer humano quando o mundo tenta endurecer o coração.
E então vieram os anos.
Os cabelos embranqueceram.
A ginga desacelerou.
A bengala passou a acompanhá-lo pelas ruas.
Mas quem pensava que era apenas uma bengala não conhecia Caiçara.
Ela carregava a elegância dos antigos.
A memória do mestre.
A dignidade de quem jamais se curvou diante da vida.
Quando atravessava o Pelourinho, parecia uma árvore caminhando.
Raízes profundas na tradição.
Galhos alcançando a eternidade.
Os boêmios o respeitavam.
Os capoeiristas o reverenciavam.
As crianças o abraçavam.
Os velhos contavam suas histórias.
E as histórias aumentavam.
Porque toda lenda cresce depois de nascer.
Diziam que uma cobra o mordeu e morreu.
Diziam que enfrentou homens impossíveis.
Diziam que sua reza tinha força.
Diziam tantas coisas…
E talvez todas fossem verdade.
Ou talvez a verdade fosse ainda maior que as histórias.
Porque existem pessoas que deixam de pertencer à realidade e passam a habitar o imaginário do povo.
Caiçara tornou-se uma dessas pessoas.
Quando partiu, numa tarde de agosto de 1997, não foi apenas um homem que se despediu.
Foi um canto.
Foi um toque de berimbau.
Foi uma parte da alma da Bahia que atravessou a última porteira do mundo.
Mas a morte, às vezes, perde a luta.
Perde quando encontra homens como Caiçara.
Porque até hoje, quando o berimbau chama e a roda se fecha, alguém canta uma ladainha antiga.
Até hoje, quando o samba ecoa pelas ladeiras do Recôncavo, seu nome aparece no meio da conversa.
Até hoje, quando a capoeira fala de seus grandes mestres, ele surge caminhando devagar, apoiado na bengala, sorrindo de canto, como quem sabe um segredo que ninguém mais sabe.
E talvez saiba mesmo.
Porque homens comuns viram retratos.
Mestre Caiçara virou vento.
Virou cantiga.
Virou memória.
Virou mito.
E mito não morre.
Continua gingando na eternidade.
Jorge Papapá é cantor e compositor baiano

