Aldeia Nagô
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“CÃO”, parceria entre os grupos nordestinos Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE), chega a Salvador para temporada no CineTeatro 2 de Julho

6 - 9 minutos de leituraModo Leitura

A produção de uma cerimônia para empossar o recém-eleito governante de uma jovem república é interrompida por uma notícia inesperada: o líder morreu antes mesmo da posse. Este é o mote dramatúrgico do espetáculo “CÃO” — montagem dos premiados grupos nordestinos Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE), que transforma o caos dos bastidores em uma fábula contemporânea sobre relações de trabalho, exploração, poder e sobrevivência no Brasil atual.

Após temporadas de sucesso no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, o espetáculo volta ao Nordeste e aporta em Salvador para a última etapa da circulação do Centro Cultural Banco do Brasil. A temporada vai de 18 de junho a 06 de julho, no CineTeatro 2 de Julho, na Federação, com sessões de quinta a sábado, às 20h, e domingo e segunda, às 19h (*).

Os ingressos custam R$30 (inteira) e R$15 (meia), com vendas pelo site bb.com.br/cultura. A temporada contará ainda com recursos de acessibilidade — intérpretes de Libras nos dias 21 e 28 de junho e audiodescrição no dia 05 de julho — além de bate-papo aberto ao público sobre a obra.

Primeira colaboração entre os grupos Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, e Magiluth, de Pernambuco, o espetáculo tem patrocínio do Banco do Brasil, com incentivo da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). Com direção de Fernando Yamamoto e Luiz Fernando Marques (Lubi), “CÃO” nasce de uma pesquisa sobre o Brasil atual, suas fraturas sociais, afetos e formas de resistência.

Em cena, após a morte do líder da jovem república fictícia, assistimos a um grupo de trabalhadores de eventos — técnicos de som e luz, cenógrafos, produtores, mestres de cerimônia, seguranças e operários da maquinaria invisível do teatro — numa maratona exaustiva e dias ininterruptos de preparação para garantir que uma nova posse ocorra.

A partir daí, instala-se um jogo vertiginoso de ordens contraditórias, protocolos absurdos, pressões políticas e reorganizações impossíveis. Entre correrias, colapsos e improvisos, “CÃO” transforma o caos em linguagem cênica e constrói uma sátira feroz sobre o mundo do trabalho, especialmente sobre aqueles que sustentam tudo, mas raramente ocupam o centro da narrativa.

Livremente inspirado na tragédia shakespeariana “Coriolano”, o espetáculo não pretende adaptar o clássico inglês, mas atravessá-lo pelas urgências latino-americanas do presente. O que interessa aos grupos é justamente o conflito de classes, a manipulação política, os mecanismos de poder e a precarização da vida contemporânea.

Engrenagem Criativa

Criado a partir de cinco residências artísticas realizadas entre Natal, Recife e Rio de Janeiro, o trabalho aproxima as linguagens dos dois coletivos — o realismo fantástico, comicidade popular, a musicalidade e o jogo direto com o público característicos do Clowns, somados à pulsação contemporânea, performativa e crítica do Magiluth.

“O processo da montagem foi muito natural. Fomos descobrindo, juntos, onde estavam as fraturas do presente, e daí nasceu ‘CÃO'”, destaca Fernando Yamamoto, diretor e coautor da dramaturgia, ao lado de Giordano Castro, que também integra o elenco.

Para o diretor Lubi, a investigação sobre “Coriolano” rapidamente revelou que o centro da obra deveria estar em quem sustenta a máquina social. “Tanto no texto original quanto na realidade latino-americana, são sempre essas figuras que sustentam tudo, organizam tudo, reorganizam tudo, e são justamente as mais precarizadas”, reforça.

Embora construída a partir do humor, a peça não suaviza as violências que atravessam as relações de trabalho no país. Pelo contrário: utiliza a comicidade como ferramenta crítica. Yamamoto ressalta que o espetáculo cria um riso que, ao mesmo tempo em que diverte, faz refletir sobre temas urgentes e profundos.  O humor, em “Cão”, não alivia a crítica, mas a expõe. 

Em tempos em que discussões sobre jornadas abusivas, desgaste mental e a revisão da escala 6×1 atravessam o debate público brasileiro, “CÃO” encontra ressonância direta na realidade de milhões de pessoas. O espetáculo joga luz sobre corpos submetidos à pressão contínua, à instabilidade e à necessidade constante de adaptação — trabalhadores que reorganizam o caos diariamente enquanto permanecem invisíveis nas estruturas de poder.

Metateatro

O espetáculo também atravessa criticamente o próprio fazer cultural. Em “CÃO”, os bastidores deixam de ser apenas cenário para se tornarem território político. A peça evidencia as engrenagens invisíveis da produção artística e questiona as condições de trabalho de quem constrói a cena cultural brasileira. “A cultura é um campo em que a precarização aparece de maneira gritante. E é justamente nesse campo que seguimos criando, resistindo e nos reinventando”, completa Lubi.

Entre desmandos surrealistas, confusões políticas e protocolos improváveis, “CÃO” revela ainda aquilo que o teatro tem de mais humano: a capacidade de inventar poesia em meio ao colapso. O protagonista morre antes mesmo de entrar em cena, mas o espetáculo continua. E talvez seja justamente aí que mora sua maior metáfora — a vida segue sendo sustentada por aqueles que trabalham sem descanso para que tudo permaneça funcionando.

No palco, essa engrenagem é conduzida por Caju Dantas, Diogo Spinelli, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sérgio Cabral, Olivia León e Paula Queiroz. A dramaturgia musical é de Ernani Maletta, o design de som de Gabriel Gianni, iluminação de Ronaldo Costa, cenário de Fernando Yamamoto, Luiz Fernando Marques e Rogério Ferraz, figurino de Maria Esther e direção de produção de Talita Yohana.

Com trajetórias consolidadas no teatro brasileiro contemporâneo, os grupos nordestinos Clowns de Shakespeare e Magiluth unem, em “CÃO”, duas pesquisas artísticas reconhecidas pela experimentação estética, potência crítica e forte diálogo com os territórios latino-americanos. Nesta obra, os dois coletivos convergem suas poéticas para construir uma obra que ri da tragédia enquanto escancara as estruturas que organizam o presente.

Com mais de três décadas de trajetória, o Clowns de Shakespeare consolidou-se como um dos grupos mais importantes do teatro brasileiro, desenvolvendo uma pesquisa contínua sobre teatralidade popular e latino-americana, acumulando circulação por todas as capitais do país e apresentações em nações como Equador, Colômbia, Peru, Chile, Uruguai, Bolívia, México, Portugal e Espanha. 

Já o Magiluth, surgido em Pernambuco, em 2004, tornou-se referência nacional por suas criações experimentais e pela investigação permanente de novas linguagens cênicas. Dentre os seus espetáculos de grande sucesso estão “O ano em que sonhamos perigosamente” (2015), “Dinamarca” (2017), “Apenas o Fim do mundo” (2019), “Estudo N1: Morte e Vida” (2022), “Estudo N2: Miró” (2023) e “Édipo REC” (2024).

Sobre o CCBB

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) é uma rede de espaços culturais gerida e mantida pelo Banco do Brasil, com o objetivo de ampliar a conexão dos brasileiros com a cultura e valorizar a produção cultural nacional. Presente no Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, está em avançado processo de instalação de sua nova unidade em Salvador.

Na capital baiana, passa a ocupar o Palácio da Aclamação, histórico edifício do início do século passado e que, durante mais de cinquenta anos, foi residência oficial dos governadores da Bahia. Mesmo antes de iniciar suas atividades no Palácio da Aclamação, o CCBB já realiza intervenções culturais em importantes espaços da cidade de Salvador.

Site: bb.com.br/cultura

Instagram: @ccbbsalvadorbahia 

E-mail: cc************@****om.br

SERVIÇO

CÃO — espetáculo do Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE)

Quando: 18 de junho a 06 de julho
Quinta a sábado, às 20h
Domingo e segunda, às 19h

Onde: CineTeatro 2 de Julho — Federação, Salvador (BA)

Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia) – Vendas pelo site bb.com.br/cultura

Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 115 minutos

Acessibilidade:
Libras — 21 e 28 de junho
Audiodescrição — 05 de julho

Atividade formativa:
Bate-papo aberto ao público sobre a obra durante a temporada

Patrocínio do Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).

(*) Nos dias dos jogos do Brasil na Copa do Mundo 2026 a programação poderá sofrer alterações de horário.

FICHA TÉCNICA

Realização: Ministério da Cultura, Centro Cultural Banco do Brasil e Governo do Brasil — do lado do povo brasileiro

Patrocínio: Banco do Brasil

Elenco: Caju Dantas, Diogo Spinelli, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sérgio Cabral, Olivia León e Paula Queiroz

Stand-in: José Medeiros

Direção: Fernando Yamamoto e Luiz Fernando Marques (LUBI)

Dramaturgia: Giordano Castro e Fernando Yamamoto

Dramaturgia Musical: Ernani Maletta

Design de Som: Gabriel Gianni

Projeto de Iluminação: Ronaldo Costa

Cenário: Fernando Yamamoto, Luiz Fernando Marques (LUBI) e Rogério Ferraz

Figurino: Maria Esther

Adereços (Perna e Boneca): Mona Magalhães, Raibolt e Carlos Alberto Nunes

Colaboração em Palhaçaria: Ésio Magalhães

Identidade Visual: Bruno Parmera (Mochila Produções)

Design Gráfico: FilipeAnjo

Fotos de Divulgação: Renato Mangolin e Brunno Martins

Assessoria de Imprensa: KAÔ Comunica

Consultoria e Desenho de Projeto para Lei: Ana Paula Medeiros

Produção Local: Fernanda Nascimento

Direção de Produção: Talita Yohana (TAYÓ Produções)

Coordenação Geral e Produção Executiva: Renata Kaiser

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