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Considerações sobre Bolsonaro e as possibilidades de um golpe dentro do golpe. Por Bruno Ribeiro
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Dando o que Falar
Qui, 23 de Abril de 2020 05:24

Bruno_Lima_RochaÀqueles que diziam, antes das eleições, que o sistema trataria de enquadrar Bolsonaro dentro das práticas consolidadas pelo pacto constituinte de 1988 e que as instituições tratariam de colocar limites ao presidente, eu respondia que esta era uma visão ingênua, porque estava baseada em parâmetros que não serviam mais para analisar a atual conjuntura.

O que temos visto hoje é a insistência dos analistas da imprensa de usarem esquemas interpretativos que serviram como bases no passado recente, mas que não fazem mais sentido. Isso porque a República que conhecemos não existe mais como tal e vem desmoronando feito castelo de areia desde 2013.

Os comentaristas políticos que se chocam ou se espantam com as atitudes de Bolsonaro estão presos a esta visão que predominou no país a partir do Consenso de 1988 e ainda não entenderam que ele, Bolsonaro, representa a ruptura com a velha política, por mais que tenha se beneficiado dela nos quase trinta anos em que foi um insignificante deputado do baixo clero.

Li recentemente uma análise muito lúcida do jornalista David Butter, que chegou a ser editor-chefe do Jornal das Dez, na Globo News. A opinião dele coincide com a minha quando ele diz que os jornalistas brasileiros, ao contrário dos europeus, ainda não entenderam o que pensa, o que defende e onde quer chegar Bolsonaro. Segundo Butter, "ficar forçando um enquadramento do que presenciamos em modelos antigos é só uma vontade de seguir trabalhando de velhas formas".

Ainda nas palavras do jornalista, nunca tivemos um presidente como Bolsonaro e talvez nunca mais venhamos a ter outro assim. E isso porque Bolsonaro "venceu com uma proposta radical (no sentido original da expressão, sem juízo de valor). O ímpeto da ascensão e da afirmação dele é revolucionário". Eu acrescentaria, sem pudor, o termo "fascista".

Enquanto as análises políticas não partirem desse ponto — o de que Bolsonaro é um líder fascista com significativo apoio popular —, continuaremos entre chocados e confusos diante das atitudes do presidente da República. É preciso sair da zona de conforto para analisar Bolsonaro. Só compreenderemos de fato seu governo quando aceitarmos o fato de que Bolsonaro é um político FASCISTA.

Tirando a sua visão atual sobre o papel da economia na sociedade (depois de anos defendendo a economia estatizante, Bolsonaro agora é entusiasta do ultraliberalismo), todas as características do ser fascista estão presentes em seu comportamento, ações e palavras. Numa definição básica, o fascista é alguém que professa uma ideologia política autoritária, de extrema direita, caracterizada pelo desejo de poder ditatorial, controle da informação, repressão de opositores por via da força, desprezo pela mediação institucional e forte arregimentação da sociedade.

É por isso que devemos considerar um erro a ideia de que certas atitudes de Bolsonaro e de seus asseclas são "cortinas de fumaça" para desviar a atenção da mídia e da população para "assuntos que realmente importam" (assuntos quase sempre de cunho econômico). Os gestos "absurdos" cometidos pelo núcleo duro do governo não são e nunca foram "cortinas de fumaça". Pelo simples fato de que fazem parte, conforme dito acima, da esfera do fascismo.

Bolsonaro não é um demagógico, como dizem algumas pessoas sensatas do campo progressista. Ele não estava blefando quando disse que a solução para o Brasil seria "fechar o Congresso e fuzilar uns 30 mil". E nem quando disse que "antes de construir será necessário destruir muita coisa nesse país". A destruição do mundo velho, para o florescimento de uma nova ordem, é requisito obrigatório para que qualquer revolução seja bem sucedida.

Bolsonaro é o arauto de uma revolução em curso, queiramos ou não admitir. E se quisermos barrá-la é preciso compreender seus movimentos e combatê-los sem as lentes da análise instrumental.

Bolsonaro se coloca como líder de um movimento e isso não é demogagia. Em artigo publicado durante a campanha presidencial, escrevi que a política de Bolsonaro é exatamente o que ele fala e faz. É o seu ethos. Seu modo de ser e estar no mundo. Isso deveria ter ficado claro há muito tempo para os jornalistas, mas a maioria de nós ainda demonstra espanto ou indignação com as atitudes de Bolsonaro. O que esperam, afinal, de um fascista?

Bolsonaro acredita estar numa missão profética, mas esse seu "delírio" não surge do nada. Não é fruto de sua "mente perturbada". Tratá-lo como "louco" é desconsiderar a sua radicalidade e os efeitos práticos de seu discurso.

O pensamento de Bolsonaro é fruto de uma construção coletiva: parte dele vem do projeto Orvil, um compilado de mais de mil páginas contendo a versão dos milicos sobre o período da ditadura, lançado nos primeiros anos da redemocratização (em 1987, mesmo ano em que Bolsonaro foi afastado do Exército por planejar um atentado terrorista contra o próprio quartel).

Segundo os militares obscuros que assinam os textos, o Brasil sempre esteve sob a ameaça comunista e só estaria livre de se tornar uma ditadura do proletariado quando a nação fosse refundada com novos princípios e valores, sem a presença do pensamento liberal ou de esquerda nas artes, na imprensa, na universidade, no direito e nas instituições políticas.

A partir dos documentos contidos no projeto Orvil, o torturador Carlos Brilhante Ustra a escreve "A Verdade Sufocada", livro de cabeceira de Bolsonaro. Segundo Ustra, "predominava no país a versão dos derrotados que agiam livremente, sem qualquer contestação. As Forças Armadas, disciplinadas, se mantinham caladas (...). Aos poucos, a farsa dos revanchistas começou a ser aceita como verdade pelos que não viveram à época da luta armada e do terrorismo e que passaram a acreditar na versão que lhes era imposta pelos veículos de comunicação social".

Outra parte do pensamento de Bolsonaro é ocupada pelas ideias de Olavo de Carvalho, autodeclarado filósofo e espécie de guru de seu governo. Um dos erros cometidos pela imprensa na época dos governos do PT foi dar espaço e voz a este tipo bizarro. Lembro-me de vê-lo na TV fazendo comentários na Globo News e assinando colunas na Folha de S. Paulo, como se fosse um mediador respeitável. Ele foi um dos responsáveis por popularizar o discurso de ódio no Brasil e por ressuscitar a ideia de que o país estaria prestes a se tornar uma ditadura comunista.

Ao longo dos últimos vinte anos, Olavo de Carvalho arregimentou milhões de seguidores por meio de artigos, palestras e videoconferências. Três desses seguidores radicais são os filhos de Bolsonaro - Carlos, Flavio e Eduardo -, que praticamente controlam a comunicação do governo e a narrativa dos ministérios considerados essenciais para o aprofundamento da revolução: relações exteriores, educação e direitos humanos.

Recentemente, Olavo de Carvalho escreveu em sua conta no Twitter (com caixa alta e tudo): "Bolsonaro não é só o presidente escolhido e amado pelo povo. É o líder natural e predestinado da REVOLUÇÃO BRASILEIRA. Sua missão é quebrar a espinha do Estamento Burocrático e colocar de uma vez O POVO NO PODER".

Olavo de Carvalho acredita na "guerra cultural" como caminho para a "libertação do povo brasileiro". Segundo ele, estaríamos dominados pela "ideologia comunista" de tal forma que não conseguiríamos sequer perceber isso. E essa "dominação dos corpos e das mentes" seria a responsável por grande parte do nosso atraso e de nossos problemas, como a corrupção, os impostos extorsivos, a criminalidade, o ateísmo, os desvios morais, o feminismo, a homossexualidade, a luta de classes, etc.

Olavo defende - inclusive prega com estas palavras - que a solução passaria por exterminar não só as instituições do estado permissivas ao pensamento de esquerda (Congresso, Senado e STF), como também as pessoas de esquerda. Uma das virtudes de Olavo, em relação a muitos de seus seguidores, é falar abertamente o que poucos têm coragem. Não foram duas ou três as vezes em que ele teceu críticas a Bolsonaro pela "demora em agir" no sentido de "exterminar opositores". Não acreditem em mim, leiam o próprio Olavo de Carvalho.

Alguém poderá dizer que Bolsonaro não faria isso porque as instituições ainda estão funcionando e colocariam um freio à escalada autoritária. Não é o que temos visto, sejamos sinceros. Muitas universidades públicas já contam com interventores do estado. O projeto Escola sem Partido, mesmo sem ser aprovado, já está em vigor. As escolas militarizadas idem. Professores se autocensuram para evitar que sejam denunciados como "doutrinadores comunistas".

Alguns processos contra professores resultaram em condenações (há, entre os juízes, magistrados simpatizantes do fascismo). Isso sem falar na censura artística - prática cada vez mais naturalizada e aceita por grande parte da sociedade - e na forma como o governo federal despreza o valor símbolico da arte e seus criadores. Relegar ao esquecimento os artistas é uma forma de exterminá-los simbolicamente (o fim do Ministério da Cultura e o silêncio acerca da morte de personalidades como João Gilberto e Moraes Moreira, por exemplo).

O discurso anticientífico de Bolsonaro é coerente com sua visão olavista de mundo, uma vez que a Ciência é um obstáculo poderoso à "guerra cultural" que está sendo travada pelo controle da narrativa. Ao meu ver, nós, jornalistas, temos sido negligentes ao desconsiderar que por trás dessa ideologia delirante estão milhares ou milhões de seguidores dispostos a matar ou morrer por ela. Repito: sem compreender o olavismo e seu poder de alcance continuaremos patinando sem sair do lugar.

Bolsonaro tem algo em torno de 30% de apoio da população. Esses 30% formam a sua militância mais convicta. Grande parte desse montante conhece o pensamento olavista e o reproduz em suas redes sociais. São as pessoas que fazem manifestações a favor do coronavírus em frente a hospitais ou que vão às ruas clamar por intervenção militar. Bolsonaro não perderá essa base de apoiadores porque ele está entregando a ela exatamente o que prometeu durante a campanha: "combater o comunismo e varrer os vermelhos do mapa". Não se pode dizer que não esteja tentando.

Bolsonaro sabe como criar ansiedade na população para alimentar seus seguidores. As promessas que faz são de vantagens extrínsecas que envolvem micropoder, status e segurança. É óbvio que seus seguidores teriam basicamente o mesmo perfil: pessoas medíocres e agressivas, de pouca cultura, situadas não só na classe média alta, mas também entre o lumpesinato. Pesquisas mostram que o perfil padrão do militante bolsonarista é o jovem de classe média baixa. É por isso que se pode notar a presença de motoboys em manifestações organizadas por empresários (alguns são financiadores desses atos fascistas, como é o caso do dono das lojas Havan).

As pautas que unem os ricos ao lúmpen são as mesmas e a linguagem pela qual elas chegam até eles é simples e acessível, sem qualquer traço de intelectualismo ou jargões da política institucional. Exatamente como Hitler se comunicava com seus apoiadores para mantê-los ao seu lado, apesar de Bolsonaro não chegar ao calcanhar de Hitler em técnica discursiva. É óbvio que Bolsonaro manterá sua base fiel até o fim e, por menor que ela seja em comparação com o todo da sociedade, isso basta para que se justifique um golpe dentro do golpe. Estamos falando em mais de 60 milhões de pessoas fechadas com um fascista.

Por isso é uma perda de tempo analisar as ações de Bolsonaro como se ele fosse um mediador comum dentro do jogo político. A verdade é que estão todos jogando xadrez enquanto Bolsonaro está chutando o tabuleiro. E ele não vai parar. Nos últimos meses tem forçado a ruptura institucional por meio de seguidas provocações. A de ontem (domingo) foi a mais recente. Acovardadas, porque sabem que Bolsonaro teria o respaldo de grande parte das Forças Armadas e de toda a Polícia Militar, as instituições têm se limitado a soltar notinhas de repúdio. É o máximo que podem fazer para adiar o fechamento do regime.

O que devem fazer então os partidos e movimentos de esquerda diante de um cenário cada vez mais tenso e perigoso para as suas existências? Como venho dizendo - para as paredes - desde o golpe de 2016, passou da hora de os partidos se prepararem para proteger seus dirigentes e militantes mais visados. Já estamos todos fichados. Toda a documentação que possa comprometer seus membros de alguma forma deve ser enviada para locais secretos e seguros, mantendo em suas sedes a menor quantidade possível de informações, inclusive nos computadores. É preciso se preparar física e psicologicamente para situações de exílio e clandestinidade, bem como a de perdas de vidas humanas. É preciso assegurar recursos financeiros desde já para o envio de militantes para fora do país e para a luta de resistência interna. Esta possibilidade te assusta? Paciência.

Como devem se posicionar os jornalistas diante de Bolsonaro? Tratando-o como ele realmente é e não como a imprensa gostaria que ele fosse. Bolsonaro é um golpista criminoso cujo objetivo é rasgar o Consenso de 1988, destruir as instituições do estado brasileiro e exterminar quem se oponha ao seu projeto pessoal - que sempre foi provar a si mesmo que um verme como ele é capaz de cometer uma grande destruição.

É evidente a psicopatia de Bolsonaro e, portanto, o dever dos meios de comunicação é alertar a população para isto. Sem naturalizar os absurdos vindos dele e sem utilizar meias palavras para descrever a sua pulsão de morte. Abriremos os olhos a tempo? Não acredito.

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